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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Poema: "Tantinho da Vida", de Erivelto Reis


Tantinho da Vida
Erivelto Reis

Martinho da Vila,
Martinho da vida...
Há mar nessa tua praia que são o Samba,
A Literatura e o que mais quiseres.
Martin Luther luta lá...
Mandela por África e por nós
E não é marketing,
Pela arte, segues o exemplo:
Em Lisboa, por aqui e em Luanda,
A tua música é boa, tua escrita encanta.
O mundo é tua Vila...
E a Vila é a Avenida em que sambas e te deleitas.
Onde encantas em Português, em Quimbundo.
Martinho canta, anda, luta e dança...
Devagar e com axé, pintaste tua aquarela,
Fizeste tua Ópera Negra, tua Kizomba...
Sem parar, deixas a tristeza pra lá.
Batuqueiro, na tua casa de bamba
Madalena, o ex-amor e as mulheres que tiveste,
São prova inconteste do quanto amaste, apesar e além da disritmia do amor.
Entre um e outro ato, ainda uma vez mais,
Elifas Andreato ilustraria a força de tua energia ao subir no palco,
Rodeado por deuses, musas e orixás.
Noel e Donga te reverenciariam, Ismael e Silas te aplaudiriam,
Tirariam a Cartola, tocariam pra ti um Pagodinho,
À sombra de um imenso e Nobre pé de Jamelão, de uma Mangueira,
Acompanhados por Neguinho de tua coirmã,
Por Paulinho da Viola, Arlindo Cruz, Nelson Cavaquinho,
Alcione, Beth Carvalho e Leci Brandão,
Jovelina, Clara Nunes e Dona Ivone Lara pronunciariam, em coro, o teu nome,
Irmanados para sempre no espaço lúdico-celestial do samba-(canção),
Fizeste da alegria a tua Porta-bandeira.
E, no entanto, tua humildade faz de ti
Semelhante ao passista mais apaixonado e anônimo,
Ao trabalhador mais simples que houver no barracão:
O samba é teu homônimo, é tua escola, tua raiz.
Canta, escreve e compõe, Martinho!
Que é pra deixar o meu povo
Um tantinho da vida mais feliz.


domingo, 18 de fevereiro de 2018

Poema: "A INTERVENÇÃO COMEÇOU QUANDO:", de Erivelto Reis


A INTERVENÇÃO COMEÇOU QUANDO:
Erivelto Reis

A Escola foi abandonada à mingua,
O Professor teve sua importância relativizada,
Os políticos foram endeusados,
O serviço público, dilapidado,
E o servidor, satanizado.
A intervenção começou quando:
Deixaram de pagar o que deviam,
A Universidade sofreu tentativa de desmonte,
Os conchavos se alinharam,
Os bens públicos e os direitos adquiridos
Foram alvos de desmanche.
A intervenção começou quando:
Os que se sentaram à mesa de comando não sabiam comandar,
Mas eram simpáticos e subservientes aos interesses
Que os alçaram ao ponto, ao posto a que aspiravam.
A intervenção começou quando:
Os mais experientes assistiram a tudo,
Aguardando o expediente acabar...
Mas com a premissa de que sua experiência
Conferia-lhes status de não ter de responder a nada nem a ninguém.
A intervenção começou quando:
O patrão bem ou mal intencionado não quis valorizar e pagar o ordenado ao empregado,
O colocou ao rés do chão, ameaçado, amedrontado e humilhado.
Não é o general, não são os criminosos, os tanques e os traficantes:
Nem os milhares de problemas, nem os milhões de reclamantes...
A intervenção começou antes...
Não são os bilhões desviados,
Os direitos cerceados e os deveres renegados,
A propina, a criança abandonada, a cracolândia na esquina...
É a falta de respeito, de ética, de hombridade e honradez
Que elegem o mal como sina.
A intervenção começou quando:
Tínhamos horizontes e eles nos foram tirados.
Há medo, muito medo!
E isso não é segredo.
Ora a violência, ora a prepotência e a arrogância do poder,
E de quem pensa poder...
Relegam-nos ao degredo.
Com medo de o remédio ser veneno,
Exilados em nós mesmos,
E no país em que vivemos:
Perecemos.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Poema: "Rangendo...", de Erivelto Reis

Rangendo...
Erivelto Reis

Ah, Primitivo,
Quanta coisa mudou desde sua partida!
A vida está menos viva,
E a saudade chove e chora a cântaros.
Na rua dos desenganos,
Sina da qual tanto me advertira,
Vira mundo, vira tanto,
E quase o imenso barco vira.
Afunda até o ponto em que naufraga.
Sufocado por tristeza e lamento,
Humilhação e ameaça me relegam como pagamento
Para o tanto que construímos.
Há um mundo menos poético em ebulição,
Uma desordem dos afetos:
Difamação constante do empenho e da capacidade
De criação.
Descatecismo, desproteção...
Ah, Primitivo, quanta desilusão:
Os que nos governam são loucos,
Ou corruptos ou incompetentes ou tudo isso junto
(Com desfaçatez e cinismo).
Estabeleceu-se o caos, o isolamento e o desatino.
Esperava um mundo melhor,
Mas já não cismo.
Tentei contribuir para que melhorasse,
E agora imploro para que estivesse aqui,
E que me amparasse.
Não sou, nem de longe, tão forte como você foi.
Tá ouvindo este ruído?
Sou eu rangendo, à beira do abismo:
Mímese patética de um desgovernado carro de boi.
Ah, Primitivo...




terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Poema: "Família", de Erivelto Reis

Família
Erivelto Reis

A Morte é a mãe de todo mundo
E a Vida é uma tia de humor flutuante,
Que a gente passa as férias na casa dela.
O Tempo é a infância da eternidade,
E a experiência é a maturidade da velhice do Universo.
O Amor é um parente próximo,
Com o qual a gente briga de vez em quando...
E a Felicidade é um vizinho xereta,
Que está sempre querendo
Se intrometer na nossa vida.
Todo mundo tem a família que merece,
Todo mundo tem uma família que se parece,
Tem gente no mundo que parece que é da família,
Todo mundo tem alguém na família que perece.
Família é um bem que a perde quem a esquece.
É um tesouro...

E há gente que só o valoriza quando o perde.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Poema: "Vintage", de Erivelto Reis

Vintage
Erivelto Reis

À moda de Patrick Furtado

A ruga é!
O olhar também,
Chorar e sorrir são...
O passado, sem dúvida!
A ilusão.
As marcas nas costas das mãos,
O álbum de retratos descoberto no porão,
Ex-amores vingativos,
Amigos de longa data,
Suspensórios, honra e gratidão,
Silêncio na alma,
Calça boca de sino,
Futebol de botão.
Vinho do Porto envelhecido,
Retrospectiva do destino,
Infância na memória,
Livro que conta estórias
Essa rima,
Ruína,
Arrependimento.
Vestuário, decoração, comportamento.
É o tempo, deslocado,
Levando vantagem.
Toca-discos, toca-fitas
Vídeo cassete,
O que eu era antes,
E, daqui a pouco,
O ano dois mil e dezessete.




quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Poema: "Masmorras", de Erivelto Reis

Masmorras
Erivelto Reis

Apenas por milagre,
Hei de tornar a beber
A lágrima do teu vinagre.
Escuta:
Afaste de mim este cálice da tua cicuta:
Fel – cúpula de negar o céu,
Infernal arma com que a eternidade
Tenta ou agride a quem a denigre:
Oferta onipresente,
Desconto onisciente de passado...
Eis o saldo da vida: juro (s).
Cobrados dos antepassados
E pelos descendentes descontentes.

Na minha casa as paredes são de sal
E choro e despedaçam-se nos dias de festa,
Finais de semana e feriados.
Existir é uma forma de punir e de nos sentirmos
Permanentemente culpados.
Apenas por milagre hei de acreditar em milagres.
O que acontece a quase todos...
Assim estabelece-se uma meta!
Preciso que um novo futuro se aproxime,
Não posso mais extinguir (–me).
Nessa antiga idade média,
Que importa que eu não aceite?
Necessito que me cr(l)eias:
Fritarei no azeite escaldante do teu sol,
Apodrecerei nas entranhas de minhas próprias veias
Ou no fundo do tempo de tuas masmorras...
Manténs-me vivo,
Para que todo dia eu morra.



quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Poema: "Arrulho", de Erivelto Reis

Arrulho
Erivelto Reis

Meu poema caminha.
É uma palavra à toa...
É um escombro, um monturo,
Um entulho...
É um arrulho.
Desespectro de pessoa...
Meu poema é um pombo que atravessa a rua,
Sabendo que pode voar, mas não voa.
É uma toada boba,
É um atol de lama de Mariana!
Meu poema pensa que me engana...
Lá vai meu poema atravessando a rua:
Lá vai meu pombo ser atropelado,
Meu tombo:
Vidro da linguagem estilhaçada,
Tímpano perfurado da palavra,
Explosão de vísceras
E asa.