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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O HERÓI

O HERÓI
Erivelto Reis




O Cinema é uma das coisas mais incríveis já inventadas pelo homem. Essa máquina de vender sonhos,criar ilusões e de “fazer doido”, diverte, emociona, educa, informa, encanta e faz crer cada dia mais que o mundo é pequeno. E se alguém tem participação fundamental no sucesso e no fascínio do Cinema sobre o público, esse alguém, com certeza, é o herói: figura lendária que existe desde que o mundo é mundo e que sempre acha um jeito de se dar bem.
O herói sai na chuva e não se molha; pega fogo e não se queima; cai e não se quebra; pula e sempre alcança; fica pendurado e não balança; ama e é correspondido; mata e não é odiado; destrói e não paga; sai por último e chega primeiro; afunda e não se afoga; fala qualquer idioma; conhece qualquer costume; quebra algo e não conserta; olha pro telefone ao desligar; é mais fraco e sempre vence; é surpreendido e sempre reage; avisa que vai fazer, quando vai fazer e como vai fazer e faz; está perdendo e vira o jogo; apanha, apanha e não desmaia; é suturado sem anestesia e não faz careta; escapa de rajada de metralhadora, de cão treinado, de ataque de tubarão, de cilada, de tanque de guerra, de avião de caça, de helicóptero Apache, de flecha envenenada, de acidente de moto, de carro e de bicicleta. Só leva tiro sem gravidade ou de raspão. Uma surra lhe causa maior dano. O herói não cai do cavalo! E quando cai, a sua força fica ainda mais evidente.
O herói é sempre irresistível. Tem domínio absoluto sobre o vício do álcool, do cigarro, das drogas e do jogo; aliás, o herói sempre conhece todos os macetes, todas as estratégias, todos os códigos de todos os programas de computador, todas as mulheres, todos os inimigos, todos os esconderijos, todas as saídas de emergência, todos os atalhos. O herói é insaciável, incansável e incorruptível.
O herói é bem-humorado, ético, fiel e astuto. O herói é perspicaz, audaz e capaz. O herói é gentil com as senhoras, é sincero, honesto e trabalhador. O herói é habilitado para dirigir qualquer veículo, pilotar qualquer aeronave, espaçonave e embarcação. Comanda qualquer exército, elimina qualquer oponente, combate qualquer ameaça científica, biológica, química e tecnológica. Luta todas as artes marciais, maneja todo tipo de armamento, faca ou espada.
O herói não paga Imposto de Renda. Multa então, nem pensar! Jamais recebe um salário à altura de seus préstimos. Nunca vai à igreja, ao supermercado, à escola, ao médico, ao shopping, ao cinema, à praça ou a qualquer lugar público, se não for para salvar alguém ou para confrontar-se com seus dogmas pessoais. O herói é obcecado, compulsivo, perturbado, esquizofrênico, frustrado, imponente, sarcástico, irônico e lacônico.
O herói é sempre traído por alguém em quem confia. Tem um pai que é um exemplo, uma mãe dedicada, uma secretária atrapalhada, uma mulher compreensiva e uma amante temperamental (ou vice-versa) e uma filha rebelde. E apesar de ter a família, o país e os amigos ameaçados, ou de não ter família (o que quase sempre explica o heroísmo!), o herói passa a maior parte do tempo ajudando as pessoas que ele não conhece. Portanto, não é aconselhável manter um relacionamento de proximidade com o herói, além do que existe entre cinéfilos e personagens. Sabe como é: de repente você poderá precisar dele e ele não estar nem aí pra você!

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