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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O Mistério dos Livros da Profª. Sueli

O Mistério dos Livros da Profª. Sueli
Erivelto Reis



Quando a morte conta uma história
Você deve parar pra ouvir.
In “A Menina que Roubava Livros” de Mark Zusak


Professora Sueli os seus livros estão aqui.
Não todos, é claro, (eram muitos!), apenas os que consegui comprar. Não sabia o que lhe havia acontecido. Pra ser sincero não percebi no início que havia indício de uma coisa fantástica.
Eram livros usados, vendidos num sebo, como tantos que existem na cidade. Eram importantes trabalhos, sobre Literatura e assuntos conexos, alguns em muito bom estado, adquiridos aos pares, dia após dia e que traziam a inscrição na folha de rosto sem rosto: “Profª. Sueli”. Eram livros sem passado (ilusão incompatível aos freqüentadores dos sebos), até que o livreiro – comerciante de destinos – me perguntou se eu notara que tudo o que eu adquirira era de uma mesma, única pessoa... Foi como se o peso de uma existência desabasse sobre mim.
Sei que pode acontecer de alguém desfazer-se até de uma biblioteca inteira com títulos que abordem diversos assuntos; de uma enciclopédia que eventualmente tenha ficado desatualizada. Mas não daqueles livros todos de uma vez!!!
Refleti muito sobre os motivos que a teriam levado a desfazer-se das obras, especulei insone por diversas hipóteses: desemprego, doença, necessidade financeira (não se espante o Leitor, mas no Brasil é comum que os professores passem por isso), desilusão com a carreira escolhida, presente a alguém como legado; presente a alguém ingrato que depois se desfez do oferecimento como se pusesse ao lixo um lenço de papel usado.
Fico inclinado a pensar que não foi a “Profª. Sueli” que se desfez dos livros, mas que a vida é que se desfez dela. E nesse caso, poderia ser generosidade da família passar o legado da fonte de tantos conhecimentos, através do desapego material, cumprindo um último desejo de seu ente querido. Tal pensamento desperta em mim um ímpeto de compreensão e me solidarizo com a suposta perda. O “abandono” de seus livros me faz lamentar a ausência de uma pessoa a quem sequer conheci. De quem nada sei. Com que olhos a professora lia esses mesmos livros que agora me pertencem? Quais eram seus sonhos? Quais deles ela teria conseguido realizar? Era feliz? Dormia bem? Era casada? Era sozinha? Haveria livros de outros assuntos? Onde eles estariam?
Os livros têm a capacidade de apreender um pouco da essência de quem os lê, à medida que se desenha uma interação entre o leitor e o veículo que contém o objeto da leitura. E tal constatação se faz por associação subjetiva. Assim como os porta-retratos com fotos dos mortos do poema de Carlos Drummond de Andrade, a estátua de gesso do poema de Manuel Bandeira ou o “pobre poema” inacabado de Mario Quintana, o que é possuído, possui um pouco daquele que o possuía. Sempre haverá objetos que nos recordarão daqueles que se foram, pela notoriedade de sua proximidade, de sua interação. Uma roupa no armário a esperar por um filho; as sandálias velhas na soleira da porta a esperar por um pai que não vai voltar; uma pétala de rosa desbotada e seca dentro de um cartão de natal enviado por amigo distante e possível e agora tão perto e inatingível... Um retrato 3x4 de um parente, de um poeta, de um amor ou de um amigo...
Professora Sueli, os seus livros estão aqui!
Não é minha intenção evocar sua memória através dos livros que eram seus, muito embora ela surja circunspecta e embotada de mistério, talvez a me indicar que o ciclo venha a se repetir comigo. E que os seus livros que hoje são meus e estão com etiquetas adesivas contendo o meu nome, um dia, talvez, estejam numa banca vendidos num calçadão pra alguém que irá se esquecer de nós. Eu e a Senhora irmanados na firme constatação da imaterialidade, da transitoriedade da anima que move as coisas. É certo que pulsa em meu ser a idealização de quem, por ser professora (de Literatura), já mereceria o respeito do modesto escritor. O conhecimento perdura a duras penas. Que pena!
Espero que onde quer que a senhora esteja, possa estar num lugar melhor do que esse aqui. Espero que você que me lê, perceba que nas pequenas coisas, nos pequenos detalhes, se escondem as chaves da reflexão sobre coisas importantes para valorizar e melhorar a vida e para encarar a morte. Que olhe com mais carinho para os livros deixados em seu lar por alguém que se foi; que cumpra a vontade do ausente se ela assim manifestar-se. E que entenda que as páginas desbotadas de um antigo livro, são como os fios de lágrimas de um grande amigo lamentando a perda daquele a quem não vai ver mais.

Erivelto Reis

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