Quem sou eu

Minha foto
Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

domingo, 31 de outubro de 2010

Um Poema de Lêdo Ivo

OS MORCEGOS
Lêdo Ivo

Os morcegos se escondem entre as cornijas
da alfândega. Mas onde se escondem os homens,
que contudo voam a vida inteiro no escuro,
chocando-se contra as paredes brancas do amor?

A casa de nosso pai era cheia de morcegos
pendentes, como luminárias, dos velhos caibros
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
"Estes filhos chupam o nosso sangue", suspirava meu pai.

Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário, exige
o suor do semelhante mesmo na escuridão?

No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz
do farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda
o dia ofendido.

Ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oito irmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas.
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre os nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.

Um Poema de Elisa Lucinda

DEUS RI
Elisa Lucinda

A lista de mortos da gente vai aumentando com o tempo.
Quando eu era pequena não tinha noção desse morre, nasce…
Mesmo porque ninguém meu morria.
Tudo tinha um quê tão definido de eternidade,
tudo durava tanto e a vida não faltava.
A vida era pontual como os quintais e as goiabeiras ali.
Todo dia ali, existindo.

Eu não tinha a mínima noção desse vai e vem,
desse revezamento, desse rodízio da humanidade:
quem vai pro saque, quem sai do jogo, quem é escalado,
quem vai pra reserva.

Nada disso havia na minha menina. Agora não.
Agora morreu Tião Sá, o filho do Joelson, a mãe da Márgara,
Chiquinho Brandão, minha mãe, Bukowski, Cazuza, Grande Otelo,
Mario Quintana, Senna, Fellini, Sérgio Sampaio e tantas
mil gentes engrossando a fileira da bola fora.

O itinerário das vias de cada um vai estourando como bolas
de aniversário na minha cara e vai ficando longe o tempo
em que os meus não morriam, nem quando eu queria.

Deus, com certeza, ri. Não de sarcasmo,
mas pelo costume de ver passar as boiadas e
de olhar para elas despencando na curva final das planícies…

Pra onde? Só Deus sabe.
E é por isso que Ele ri.

Um Poema de Manuel Bandeira

POEMA DE FINADOS
Manuel Bandeira

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.


Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.


O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.

Um Poema de Renata Pallottini

OS MORTOS
Renata Pallottini


Os mortos estão deitados

mas os seus nomes tremulam sobre as campinas como flâmulas,

voam sobre as campinas a memória de suas faces

e a brancura de seus ossos perduráveis;



dizei, dizei dos mortos o que vos parecer,

eles estão deitados sob o limo com os olhos fechados,

com fibras e raízes onde estavam os olhos,

e com sumos e chuvas no lugar que era a boca;



Só a nossa lembrança os reúne e os congrega,

somos nós nossos mortos e estamos enterrados

e jazemos nós mesmos misturados às flores.

Dizei portanto as sentenças e os crimes,

já não podeis condenar-nos à morte.

Já pouco importa.



Porque estamos deitados,

vitoriosos e sós, imaculados, livres,

com as mãos cheias de terra e de silêncio.

Um Poema de Adélia Prado

Poema Esquisito
Adélia Prado

Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito.
É raríssimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa.
Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo
de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai.
Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles,
pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai. Ôôôô mãe.
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.

domingo, 10 de outubro de 2010

Crônica: A Intimidade não Passa - Erivelto Reis

A INTIMIDADE NÃO PASSA
Erivelto Reis

Dizemos que temos intimidade com aqueles com os quais partilhamos particularidades cotidianas, certo? Ou será que a intimidade é a permissão dada para que outros possam conviver com o personagem que representamos ou com aquele que desejaríamos representar? Na dúvida, não arrisque: íntimo só o seu pensamento. Tudo mais é assessório.
Intimidade é conhecer os olhos do outro. É a impressão presa na retina: a indevassável região que marca indelevelmente a individualidade humana. Intimidade é brincar de ser, mesmo por alguns minutos, o que gostaríamos que outro soubesse que somos ou gostaríamos de ser. Intimidade é beijo nas pálpebras, são mãos entrelaçadas olhando um pôr-do-sol, é respeitar o silêncio alheio e partilhar a dor do outro se isso o ajudar a carregar o seu fardo.
Intimidade é dizer a verdade como se recitasse um poema, declamando as pausas exatas que servirão como espaço para que as portas da consciência e da sensibilidade sejam abertas. Intimidade é lamentar a ausência, intimidade é buscar coerência na incoerência, é se pôr no lugar do outro.
Intimidade é respeitar as fraquezas, é ajudar a superar os limites e transpor as barreiras. Não sendo constante, ser intenso; e sendo intenso, ser sincero. É ser educado, mesmo supondo-se dispensado de sê-lo, é ter zelo, é ter jeito. Ser íntimo requer conciliar qualidades, ousadias e vontades. E constitui um grande desafio: partilhar a intimidade como se regido por protocolo, ser sempre natural em face do que, às vezes, pode parecer diferente e não sentir tédio diante da normalidade apresentada como cartão de visita.
Conhecer a intimidade de alguém ou partilhar a sua, é uma via de mão dupla. Não se compensa intimidade com mais intimidade. Ela é um bem que cessa, mas não passa. Intimidade se paga com amor. Mesmo sabendo que, nem sempre, amor com amor se paga.

Homenagem ao Dia do Professor - Crônica: A Despedida da Velha Mestra - Erivelto Reis

A DESPEDIDA DA VELHA MESTRA
Erivelto Reis

Aquele seria o seu último dia de aula e a velha mestra preparava-se para deixar o colégio. Foram mais de trinta anos lecionando para os alunos da mesma escola. A fórmula era invariável: aos alunos da manhã alfabetizava, aos da tarde ensinava os meandros e pormenores da Gramática e da Língua Portuguesa e, à noite, ainda encontrava tempo para a educação de adultos.
Já havia recebido homenagens de seus colegas na sala dos professores; já havia visitado, sala por sala, aos alunos de sua tão amada escola. Recebeu um buquê de flores, uma placa e um certificado em sua homenagem. O próprio secretário de educação havia enviado um e-mail (vícios da modernidade), ressaltando a importância de sua abnegação e o seu empenho na condução de suas atribuições como educadora... Achou a mensagem politicamente correta demais. Mesmo assim, gentil como sempre fora e auxiliada pela secretária, respondeu ao e-mail, dizendo-se honrada pela deferência (também politicamente correta). Tanto melhor seria que, nesses trinta anos de profissão, aqueles incontáveis nomes que ocuparam cargos inerentes à Educação (mesmo que não se ocupassem dela, com raras exceções), houvessem por bem, ter investido na formação de nossas crianças, de nossos jovens e adultos. Poucos... Bem poucos foram aqueles que se posicionaram em favor daquele que constitui a alma de toda e qualquer escola: o professor.
Agora, a velha mestra esvaziava os seus armários, que continham poucas coisas de referência pessoal. Houve uma época em que seus armários eram abarrotados não apenas por provas, testes, planejamentos, diários e documentos de suas turmas e de sua escola, mas, e principalmente (uma sensação de orgulho invadiu-lhe o peito), de bilhetes, desenhos, poesias e declarações de carinho e apreço de seus alunos. Hoje, despedir-se de tudo isso, era impossível, o ritual de deixar a escola, realizar-se-ia apenas no plano material, pois espiritualmente, ela estaria sempre ali.
Por conta de sua profissão, não se casara, não tivera filhos (apenas gerações de filhos que adotara - alunos que passaram por suas mãos!), e o retorno a casa, seria vazio, não pela casa em si, mas pela falta da perspectiva do dia seguinte, da aula seguinte. Lembrou-se de quantas vezes indignou-se devido à competição injusta e desleal entre a educação que os professores podem oferecer e a que os meios de comunicação geralmente oferecem. “A televisão só ensina o que não presta”, costumava dizer... Hoje, a internet também cumpre o mesmo papel. Muitos foram os pais que atribuíram à TV e, exclusivamente, aos professores o papel de educar e ensinar valores aos seus filhos e nem sempre os resultados foram satisfatórios. Tudo isso a velha mestra pensava enquanto andava pelos corredores de sua escola.
De súbito, uma sala vazia a deteve de sua última caminhada e a fez, quase instintivamente, entrar e sentar-se à mesa do professor. Olhando as carteiras, colocadas como a esperar pelos alunos e pelo professor, lembrou-se de como se sentia bem quando chegava à escola a informação de que um ex-aluno havia conseguido uma boa colocação na vida, ou simplesmente, que estava lutando por uma melhor colocação, mas que estava feliz. O que não gostava mesmo era da expressão “ex-aluno”. Soava para ela como se fosse possível dizer “ex-filho”, “ex-mãe”... Também ficava triste ao saber que perdera um aluno para a violência, para a desumanidade que parece querer destruir o mundo, através das mais variadas artimanhas...
A velha mestra, que sempre soubera conquistar o silêncio e atenção de suas turmas com simpatia, mas com firmeza, agora daria tudo para ouvir de novo o burburinho e até mesmo a algazarra de seus alunos mais entusiasmados. Lembrava-se de toda a alegria que o magistério lhe proporcionara, sentia-se plena, realizada, completa.
Preocupava-se, sim, com o rumo que a Educação teria dali pra frente. Conhecia perfeitamente as dificuldades da profissão que abraçara e dignificara sem, no entanto, jamais ter se deixado abater. Sabia que o que leva um professor à sala de aula não é a falta de oportunidades profissionais, mas a sua alta qualificação. Mas com a falta de perspectiva, muitos certamente, abandonariam o giz e o quadro negro (hoje nem já tão comuns), e procurariam abraçar outras carreiras. E talvez esta incerteza a deixasse infeliz.
“Quem contará as pequenas histórias?”, perguntou certa vez um poeta. E, lembrando-se desse verso, a velha mestra chorou. Chorou e soluçou. Pelo outro dia que não chegaria a ser como os demais. Pela moldura de um sorriso que se ilumina ante a descoberta do conhecimento. Pelo passado e pelo futuro que se encontravam naquela sala vazia, naquele momento. Chorou porque sabia que a sua profissão sempre existiria, mesmo que a humanidade fosse morar em Marte. Chorou porque, no íntimo, ela sabia que havia cumprido bem a sua parte. Chorou por saber que só a Educação pode tornar real a soberania de um povo. E sabia que, apesar de cansada, se lhe fosse dada a chance, recomeçaria e faria tudo de novo.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

As Cartas - poema de Primitivo Paes

AS CARTAS
PRIMITIVO PAES
Quero ver a nossa gente
fazer a nação crescer
os lavradores plantando
para a família colher
ter casa para morar
escola para aprender
para quando for adulto
não ser humilhado assim
cabisbaixo, timorato,
vai à casa do vizinho
tremendo, olhando pro chão
chega falando baixinho
coração acelerado
vai logo dizendo assim
com uma carta na mão
"Leia essa carta pra mim"
Chegou carta dos parentes
não sabemos o que fazer
nem meu pai, nem minha mãe, nem eu
não sabemos ler.
Desculpe tomar seu tempo
e vir pedir pra você ler.
As coisas vão melhorar
eu ainda quero ver
um dia vou pra escola
eu vou aprender a ler
a somar, diminuir, dividir, multiplicar
pra quando for pra usina
cortar cana pra moer
saber quanto vou ganhar
e o tanto que vou perder
mas quando as cartas chegarem
eu mesmo saberei ler.

Segredos de meus parentes
vizinho nenhum vai saber
daí ninguém me segura, Brasil,
estou com você.