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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

domingo, 20 de novembro de 2011

Crônica: Edredom Verde - Erivelto Reis

EDREDOM VERDE
Erivelto Reis

Um amigo afirmou que um edredom verde que ganhara lhe trouxera impressões e visões de uma pessoa recém-morta. Realmente é de preocupar. Não sou supersticioso, mas evito passar embaixo de escada, bem como cair de uma – embora já tenha caído. Evito gato preto, angorá, gato da Light e da CEDAE, quando dá. Sou como boa parte dos brasileiros: acredito que água benta e aguardente podem servir pra cuidar de uma gripe e pra elevar o pensamento pros santos. Pé de coelho e coelho ensopado, tô fora! Espelho descoberto, ficar sem camisa, cortar cabelo, segurar faca, em momento de raios e tempestades, também não rola.

Não sei se meu amigo viu ou não viu o edredom verde se mexendo. Acredito desacreditando e desacredito afirmando que... sei não. Tudo é possível. O edredom verde tem até uma leitura metafórica, em relação àqueles que têm sua última morada no estilo jardim da saudade. A imagem da grama como edredom verde que cobre e conforta sepultados como a aquecê-los do frio eterno, prometendo protegê-los do esquecimento. Haja Paciência!

Não gosto do confinamento da morte. Mas há quem goste. Quem erija monumentos, odes. Há quem a suporte, explique e conforte com religião, metafísica explicação ou com um galão de Jurubeba Leão do Norte.

Antes que eu me esqueça, também não dá pra confundir alma penada, com coisa inventada, visão embaçada de gente estressada, ou sarcasmo de quem não acredita em nada. Isso vale até pra você que, como eu, até bem pouco tempo confundia fantasma com ET. Fantasma é o vulto que a gente pensa que não vê. Enquanto ET é gente do outro mundo que a gente cisma que vê. Como quando um bom poeta declama um lindo poema pra você. Se pintarem de verde, então, não tem como não parecer.

Sei de muita gente que é destemida, que revida. Que bota assombração pra correr. Que acende vela pras almas, que manda rezar novena. Que paga caro no cinema pra ver o espírito aparecer. Sei que há também gente medrosa, apavorada, desesperada. Que não pode nem pensar em horas extremas, últimos dias, momentos derradeiros. Entre uma ponta e outra, entre mortos e feridos, está o resto do mundo inteiro.

Não importa o que a NASA e a Igreja digam. Não gosto que me assustem, que me intimidem, que me pressionem, que me persigam. Se querem mandar uma mensagem, usem a criatividade, dispensem minha mediunidade claudicante, minha visão holística, astrológica, metafísica. Mandem um e-mail, com o assunto: “Importante”. Que não seja campanha, corrente, repassando ou encaminhando. Mandem uma informação autoastraltuitando.

A dor de quem perde alguém não passa com remédio. Nem mesmo sei se tem cura. Perdi minha avó e dois ou três amigos queridos e até hoje não me curei. Sofro até com a dor alheia. Sofrimento sentido assim, de meia, é uma coisa feia. É o latifúndio da dor que distribui lembranças e cruzes, à margem de covas de sete palmos, jazigos perpétuos, gavetões de cimento e gelo. Marca de calendário, dia de desaparecimento, interrupção fatal. Coroa de flores, cheiro de murta. Última lágrima. Tempo que custa a passar.

Não é que falte quem console. Há quem não se deixe consolar. A morte é a morte da morte. Você pode não perceber! Covas, sepulturas, campos santos, cemitérios, jazigos, crematórios e o que mais aparecer. O jardim da saudade é o céu, mas poderia ser o mar. Edredom verde talvez não seja o jardim da saudade. Quem sabe, um jardim de sempre lembrar.

Um comentário:

  1. Também gosto de pensar no verde como uma vasta relva, um gramado a se pisar e correr não como descanso eterno. Ainda não quero pensar nisso, tenho muita sede do saber. E adorei sua cônica Professor.

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