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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Poema: Ponto Final - Erivelto Reis


PONTO FINAL
Erivelto Reis

Nessa história de ser sempre aprendiz,
Tem gente que não aprende:
Que acha que amigos
São como desenhos de giz.
Que a vida é uma sala de aula,
Que amizade é quadro negro
Desenhado com gráficos estatísticos
Respaldados em processos metafísicos.
Sentimentos não são rascunhos,
Pessoas não são desenhos...
É assim no lugar de onde eu penso que venho.
Amigos são pra toda a vida
Devem ser elogiados, reconhecidos... Prestigiados.
Se em silêncio de pacto que não possa ser quebrado,
Pelo menos, respeitados, reverenciados à distância.
Como os sonhos relembrados, ocasionalmente
Resgatados da memória da infância.
Pense nisso, guarde a ideia por toda a vida:
Amigos não são rabiscos, que se apagam ao final do ano,
Ao final de uma aula, de uma lição nem sempre aprendida.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Poema: "Valsa Lenta" - Erivelto Reis


Valsa lenta
 Erivelto Reis

Não te peço pra ficar
Não me proponho a ir embora
Nessas horas o coração não colabora.
É impossível inventar uma história:
A discussão é o enredo que corrobora
O desfecho da mágoa na memória.

Perdoados foram os pecados
Mas os pecadores continuaram agindo...
A planta seca já não brota,
A lágrima falsa escorre, mas não rola.
A valsa é lenta e demora.
Despedida é ato falho da fala,
Inventário da falta
Quando o amor que havia já não salva.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Poema: Reboco - Erivelto Reis


REBOCO
Erivelto Reis

Meu pai construía uma casa que não acabava nunca
Tijolos aparentes, reboco reticente.
Não acabava nunca a construção da casa,
Mas meu pai se acabava, todo dia um pouco

Faltava dinheiro pro cimento
Pra ferragem, pro tijolo...
Estávamos todos juntos
Mas meu pai se acabava todo dia um pouco.

Perseverar era o que mais fazíamos
Embora não conhecêssemos a palavra.
Não conhecer certos vocábulos
Nos envergonhava menos do que
As verdades que não dizíamos .
Mas meu pai se acabava todo dia um pouco.

Permanecíamos atentos
Vendo a casa ser erguida, terminada
Mas não vimos meu pai padecer.
Ladrilhamos a casa, desfizemos o lar...
Brigamos por ela,
Pela casa terminada que meu pai
Nunca chegou a conhecer.

domingo, 28 de outubro de 2012

"QUASE TOLOS" - Poema de Erivelto Reis

QUASE TOLOS

Erivelto Reis


Sou da horda dos que bebem sozinhos,

Dos que choram calados,

Dos que esperam de pé, desesperados,

Dos que não faltam, não se atrasam,

Dos que frequentam, dos que participam,

Dos que, comumente, são chamados de chatos.

Sou da horda dos que bebem cicuta,

Que não queimam pneus,

Calorias ou gordura.

Dos pré-infartados,

Dos que estão fartos

De falsidade, fofoca...

E da porra dos outdoors que enfeiam toda a cidade.

Sou da horda dos que mendigam aprovação,

Respeito, carinho, justiça e qualificação.

Sou daqueles que ouvem o ruído do vento

E se fecham em copas.

Dos que falam bobagem,

Contam piadas, fazem piada com a vida própria.

Pertenço ao bando dos que acreditam

Na poesia e em todos os campos:

Da primeira à sétima arte.

No sexto sentido,

Nas sete pragas do Egito...

Nas palavras sagradas das religiões do mundo.

E que duvidam das palavras gastas

De quase todos os religiosos do mundo.

Prefiro exemplos:

O diamante e o carvão são apenas

Maneiras diferentes de organização do carbono...

Sou da horda dos improváveis, dos impossíveis.

Igual aos anjos de bronze

Que se beijam, se olham e fazem sexo

Eternamente,

Sem explicação e sem sentir sono.

Eternamente e em cruel abandono.



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

"Cemitério de Equimoses" - Crônica de Erivelto Reis

CEMITÉRIO DE EQUIMOSES


Erivelto Reis

A vida é um cemitério de equimoses. Mas pode ser um jardim de virtudes. Quem, ao longo da existência, não colecionou marcas? O tempo deixa manchas, nódoas. O tempo poda. Cobra o preço. O tempo sempre sabe o seu endereço.

A vida é a soma das dores experimentadas; das conquistas celebradas. São mãos entrelaçadas num namoro de almas. Quanto de alguém há no aceno da partida? Quem fica do outro lado da vida, fica feliz? Quem é que diz? Como se cura a dor da alma sem deixar uma cicatriz?

Não me lembro de quando, exatamente, passei a sofrer em novembro. Que vento, que perda marcou minha pele. Mas todo ano espero a equimose da epiderme da anima. O solstício fúnebre, o franzir da testa e o latejar da têmpora da enxaqueca da saudade, seca... O equinócio da ausência no suspiro suspenso em presença do etéreo. No campo santo do cemitério, no sagrado pulsar da aorta, às vezes os vivos estão mais sepultados que a lembrança obsessiva dos entes que os faz desterrados.

Que neve gelou meu corpo? Que frio estancou meu sorriso? Que aceno ficou sem resposta? Dizem que a gente sofre porque gosta, pelo remorso de ser a viga que sustenta o próprio destroço. A cacimba que não acha o fundo do poço. A porta que guarda e esconde as emoções num calabouço, na esperança de que a dor estanque, perseverando para que o amor nos siga.

Que cinza, que tato há sobre a pele do espectro do que, em nós, é memória? O fim da vida parece destoar do começo da História. Não é uma coisa boa. Magoa. É uma mancha assimétrica e instantânea que marca o corpo, o espírito e a mente da pessoa. Maltrata, e consome. Com o tempo, se abranda. Mas não some.

É a foto desfocada do desato, da tragédia. Não se limita a marcar e a doer, se grava na retina do olhar para o que não se vê. A vida é um cemitério de equimoses. Mas pode ser um jardim de virtudes. Só depende de não sepultarmos a fé, a ética, a esperança, o amor e as nossas melhores atitudes.



sábado, 8 de setembro de 2012

Poema: Esmola, de Erivelto Reis

Esmola


Erivelto Reis





A esmola modela o passar da fome das horas,

A angústia da vida que demora,

O que dá pra disfarçar o que esconde por dentro,

O que pede pra esconder o que está por fora,

Quem oferece ajuda pensando na compra de um pão,

Quem pede pensando em embriagar a emoção,

Quem dá o que tem no bolso,

Quem pede o que vê na mão.



Esmola:

Dinheiro, comida, colchão,

Status, covardia, redenção,

Pobreza, miséria, desprezo,

Desemprego, desapego, desassossego...

Eterno começo sem fim,

Educação decadente,

Símbolo de gente indigente,

Progresso perverso e negligente,

Medo persistente, imoralidade latente.



Esmola:

São dois irmanados à dor,

Milhares pedindo favor:

Redimidos e remediados.

Irreversível flagrante

Do quase tocar-se dos condenados.



Esmola:

Agressão carinhosa do préstimo,

Presença e despedida num só gesto,

Perpetuar e cessar do protesto.

Pagar o que não se apaga,

Delimitar do terreno...

Mágoa que vira morte!

Bondade que marca forte,

Remédio que faz veneno.



quinta-feira, 19 de julho de 2012

Poema: Entre amigos - Erivelto Reis

Entre amigos


Erivelto Reis

Oi, meu amigo.

Não perca seu sorriso espontâneo,

Sua timidez romântica...

Acredite que simpatia recíproca,

Nem sempre é amizade instantânea.

A vida, às vezes prega peças:

E eu quero ver você muito feliz.



Oi, caro amigo,

Não jogue suas opiniões pela janela

Não brigue, machuque e magoe por causa delas.

Deixe claro como você pensa,

Com leveza, gentileza e com promessas

De que a amizade vai fazer superar diferenças.

Nada de ofensas!



Olá, prezado amigo:

Não sou exclusivo e também tenho outros amigos

Mas não o excluo ou o envergonho, se distante.

Mesmo afastados, se amigos,

Ao nos vermos, nos falarmos, nos reencontrarmos,

Nos amamos como antes.



Cuidado, amigo!

Que o silêncio é uma dúzia de surpresas

Não é ausência, sonolência, desprezo,

Divergência, desrespeito, condolência,

Prepotência, inexperiência, inveja,

Arrogância, deselegância ou distância...

Pode ser apenas uma forma de contemplação.



Amigo...

Tenho a impressão que amizade tem disfarces:

É a mão sem tato, confortando sua mão.

É o beijo do vento alcançando sua face.

Como se o tempo entre os amigos não passasse,

Como se a dor não os atingisse,

Como se laços invisíveis os unisse.



Querido amigo,

Os sorrisos são os guizos do amor.

Que haja, em nossa amizade, sempre risos,

Sempre humor. E que você construa o seu caminho,

Com o bem, a verdade e a tolerância sem medida.

Vamos andando, amigo, vamos juntos:

Obrigado por fazer parte da minha vida.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Poema: Lixo - de Erivelto Reis

Lixo
Erivelto Reis

Lixo é bicho humano cabisbaixo?

É moral lá em baixo e ninguém se lixa?

O lixo muda de nome e de forma,

Mas não serve pra matar a fome.

Só se alguém vender, só se alguém comprar:

O lixo é a montanha de sombra

E escombros daquilo que sobrar.


Lixo é algo aceitável, inesgotável, tratável e reciclável,

Só se houver utilidade?

É ficha limpa? Eleição com numeração raspada?

Munição com favas contadas? Tecle o verde e vê se erra.

Aperte o gatilho e confirma?

Duas formas de bala perdida?

A arma empunhada contra a própria vida.

Saudade, tragédia e azar:

O lixo é a montanha de sombra

E escombros daquilo que sobrar.


Se perder e ninguém encontrar, vai parar no lixo?

Indenização por tempo de desserviço?

Vamos acabar com isso.

Direito adquirido agora é lixo?

Corrupção, miséria e lastimar:

O lixo é a montanha de sombra

E escombros daquilo que sobrar.


Sentimento agora é lixo?

Pureza e honestidade, amizade e caridade,

Vão servir para se transformar em embalagem de produto?

É bom você pensar no assunto.

Gentileza virando etiqueta presa ao pé do carinho defunto

Não reconhecido na geladeira do IML.

Canções e poemas de amor varridos

Pra debaixo do tapete em nome do deleite do fácilsexo, do fazsucesso?

Como se não houvesse existido respeito, nexo.

Delete já. Delate já. Recicle já.

O lixo é a montanha de sombra

E escombros daquilo que sobrar.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Pequeno manual do empreendedor autônomo - Crônica de Erivelto Reis

Pequeno manual do empreendedor autônomo


Erivelto Reis

O empreendedor moderno conjuga habilidades, competências e sensibilidade. Está apto ao processo contínuo de avaliação e reorganização de estruturas que o ajudem a produzir os resultados que sejam adequados às suas metas.

O empreendedor moderno é organizado, controlado e produtivo. Trabalha e sabe os níveis pelos quais passa o negócio que tem ou a empresa em que trabalha. Sabe motivar, convencer e interagir com todos os elementos envolvidos na cadeia produtiva. Assume as responsabilidades. Estimula e premia a meritocracia. Quase sempre é premiado por ela.

Pensar no empreendedor como, única e exclusivamente, o chefe, não é dimensionar adequadamente o seu papel. O empreendedor tem senso de oportunidade, independente do cargo que ocupe e das funções que exerça. É um mediador de conflitos, uma ponte entre os interesses comuns. É um negociador que não perde tempo contando dinheiro, vantagens ou insuflando atritos. Ele visualiza, realiza e preconiza ações que movimentam uma engrenagem de realizações e transações favoráveis às atividades que exerça.

O empreendedor moderno discute projetos e não pessoas. Observa atitudes e comportamentos em contextos específicos. Não guarda mágoas para desfiar um rosário de críticas na hora da negociação ou na mesa de reunião. O empreendedor nunca despreza ou se deixa manipular pela informação.

Aqueles, entre nós, que desejam empreender, ou seja, projetar e construir meios de executar os ideais e aferir resultados positivos e significativos com seus projetos, devem ter muito nítida a figura do homem ou da mulher que empreendem, como a de pessoas que são capazes de processar um grande volume de informações de forma racional, crítica e ponderada e, a partir dessa reflexão, decidir e colocar em prática suas decisões;

Ser inventivo, criativo, proativo e autocrítico também ajuda muito. Porém, a autocrítica deve auxiliar a elucidar pontos que precisem ser reformulados, aprimorados nas ideias e nos projetos e não como máquina de implodir que paralise a ação e deixe vazio o lugar que deveria estar sendo ocupado por um empreendimento em construção.

Estabeleça metas que motivem e que não funcionem como desculpas para eventuais fracassos. Empreenda muito. Um abraço.



sábado, 7 de julho de 2012

Carta para Ana Luiza - Erivelto Reis

CARTA PARA ANA LUIZA




Você é sábia, menina Ana Luiza, porque você viu a poesia que cerca os seres e as coisas. Recebi seu poema e seu autógrafo e acho que foi um presente. Um belo presente. Você ofereceu, de repente, um gole d’água no deserto das emoções que permeiam as relações sociais, tantas vezes tão desgastadas. Você ofereceu um tesouro valioso. Não cobrou quase nada. Só a leitura de um poema.

O mundo é a folha em branco das grandes poesias, das grandes histórias que você vai escrever, das grandes vitórias que você vai ter. Persista, pergunte tudo, Ana Luiza. As respostas vão aparecer. Algumas delas, você vai perceber de primeira. E, algumas outras, você terá que esperar pra entender.

Dê a mão aos que a amam: sua mãe, seu pai, seu irmão, sua família, seus amigos... e, se lembrar, aos seus fãs, como eu, acene. Sorria. Menina Ana Luiza, o seu sorriso é como a luz que acorda e ilumina o dia. Você tem muito a realizar Ana Luiza, pois você tem Inteligência, Carisma, Talento, Amor e Deus em seu imenso coração pequenino. Ser feliz é o seu destino.

O seu carinho pelas pessoas e por seu animal de estimação é uma brisa doce no horizonte de contemplação. É bondade, boa vontade, fraternidade e alento. É a música da esperança na humanidade entoada pelo suave som dos ventos.

Poesia, Ana Luiza, é antes, durante, depois e a partir do seu poema. São as coisas que a alegria inventa. É colinho de mãe. Abraço do pai. É brincar com o irmão. É o que você faz quando escreve. São os sentimentos, as emoções. É ter paz no coração.

Agradeço pelo poema e pela dedicatória. E recordo, parafraseando do meu jeito, pra rimar com seu nome, o poeta Tiago de Melo que escreveu que é da infância que o mundo mais precisa. Seja sempre poeta, seja sempre feliz, menina Ana Luiza.



                                                                                         Rio de Janeiro, 07-7-2012
                                                                                                              Erivelto Reis

Primeiro Poema de Ana Luiza (uma menina de 7 anos) - Este eu recebi autografado.

(Publicado com a autorização da autora e da mãe da autora)


PENÉLOPE
Ana Luiza

Eu me chamo Penélope
Tenho um nome genial.
Sou divertida, bonita
E também muito legal.

Sou engraçada e brincalhona
Tenho muitos amigos e amigas.
As amigas são mais legais
E são as mais bonitas.

Eu não sei o que pensam de mim,
Acho que me acham meio boba.
Mas eu vou te contar uma coisa
Eu sou uma cachorra.
                                                                                               
                                                                                                    05/7/2012

Crônica: Os contatos e os contextos - Erivelto Reis

OS CONTATOS E OS CONTEXTOS


Não é uma seta, não é um dardo. Não há alvo.


Resta esperar que estejamos a salvo.

Erivelto Reis

Ouço falar, com espanto, que os contextos explicam os atos, que os fins justificam os meios e que o sujeito tem que impor o seu jeito, tem que dizer a que veio. Mesmo que parta a cara e o coração ao meio.

Quanto erro escandaloso passa por mérito, depois de visto pela luneta do pretérito?! Nada disso. Não aceito. Faça um teste e veja que com você é diferente: ligue para os seus contatos e veja se eles aceitam te livrar das roubadas, dos apuros, dos apertos, dos perrengues, das enrascadas, das mancadas, das burradas, das asneiras, dos atropelos, dos tropeços, dos tombaços, das besteiras, das bobagens que você tem feito. Não me diga que está contando com a rede social para atestar que você é especial. É muito pra divulgar, mas é pouco pra validar.

Passe um e-mail. Você não tem contexto?! Você é bem aceito, é chegado, é mano, e compadre, é protegido, acolhido, acochambrado, é indicado, escolhido, influente, bem relacionado? Então peça dinheiro emprestado, avisando, de antemão, que não irá pagar. Veja se tem algum valente que se aventure a te emprestar?

Haja contato e contexto para falar mal dos outros. Para subverter a lógica com cinismo, exibicionismo e falsidade ideológica. Ninguém precisa aceitar a opinião de ninguém. Mas achar que o outro não sabe, só porque você não concorda; que outro não pode, porque você mesmo se poda?!... Aí é f-o-g-o! Já é demais! É se enforcar com a própria corda. É muita marra. É pular de paraquedas com a cordinha da descarga. Assim você se estraga.

Quem tem contatos e contextos deve usá-los paro o bem. Quem tem amigos, não deve usá-los, deve amá-los, preservá-los, tá bem?! Nada de pedir favor a três por dois. Pedir caviar e pagar com arroz. Pare e pense por um segundo. Vai dizer que você não conhece alguém que pede favor a todo mundo? Um nome numa lista, numa agenda, é alguém com sentimentos; um ser de carne e osso, mesmo sendo carne de pescoço.

Quem valoriza a influência que possui, deve saber que ela se esgota, se desgasta, se dilui, se você esgarça o tecido de que ela se constitui. Nada de megalomania, ironia barata, ácida e corrosiva. Nada de usura, de pendura, empáfia agressiva, humildade fingida. Chega de fofoca e bate boca. A falta de respeito não é convidada, mas vai a todos os eventos com a mesma roupa. Quem anda pedindo caveira é assombração que aparece e assusta, mas cai do cavalo, não fica na cadeira. Não deixe a ética de saia justa. Não a envolva em uma túnica. Nem oito nem oitenta. Seja sincero, honesto e solidário. Essa não é uma oportunidade, é opção e é única.

sábado, 2 de junho de 2012

Crônica: O Hulk de Japeri - Erivelto Reis

O HULK DE JAPERI

Erivelto Reis

Enquanto as eleições se aproximam, enquanto não se separa o joio do trigo, fato que não ocorre após o pleito, mas, ao longo do exercício ético e comprometido do mandato, temos que conviver com as reações efusivas, com as solicitações votivas, com os discursos entusiásticos dos candidatos; melhor dizendo: antes, dos aspirantes, dos postulantes, dos pré-candidatos.

Pré-candidato é um político em processo de maturação, é como um artista que se apresenta em pequenos barzinhos antes de alcançar o estrelato. É o Luan Santana do anonimato, o Michel Teló desconhecido (talvez até pense “ai, se eu te pego”, só que em outro sentido!), a Joelma sem maquiagem. Acompanhe o desenho da engrenagem: ele tem o dom; pensa que tem; não tem, mas disfarça; não importa... Ele te aborda, pergunta da sua vida como se houvesse interesse, acha graça, se comove. Pré-candidato é diferente: enquanto o político em campanha cumprimenta apertando a mão da gente, ele já chega e abraça, dá tapa nas costas, fica frente a frente. Pré-candidato bem sucedido é o embrião do político inteligente, convincente.

Você, às vezes, já até os conhece: encontram-se entre eles o Seujoãodapadaria, o Zémarcelodosacolão, o Doutormarcospediatra, a Donamárciadosalão... Só que agora eles estão mais expansivos, mais felizes, mais risonhos, mais entusiasmados. Do dia pra noite, aquele sujeito pacato, daqueles que dormem na reunião do condomínio, torna-se o estadista do calçamento, o articulista do saneamento, o especialista em investimento, o arauto da modernidade, o representante do estado-maior do sonho de segurança, o estrategista do transporte na cidade. O pombo da paz da esperança.

Compreendo que a Política é uma ciência; que é coisa séria e que merece respeito de quem vota e de quem se candidata. Que seja, na sociedade, uma consequência inata; que a Democracia precise do sacrifício das senhoras e dos senhores que se devotam à vida pública; que exista o desejo de transformação. Não estou questionando ideais, honestidade, nem capacidade de ninguém, nem hoje, nem amanhã. Mas, percebam: o pré-candidato é o torcedor, o jogador de “pelada” que sonha em brilhar, marcando um gol de placa, na final do campeonato, no gramado do estádio lotado do Maracanã.

Aproveito para sugerir aos pré-candidatos que adotem como nomes de campanha, alguns nomes de personagens de desenho animado que poderão cativar, do netinho à vovó, nessa promessa implícita de que o pretenso eleitor jamais estará só e que, quem sabe, ajudarão o eleitor a memorizar o que são, como serão e como agem a partir de uma livre associação de características e de qualidades: Hulkdejaperi, Capitãoaméricadejardimgramacho, Speedracerdoestácio, Mulhermaravilhadeseropédica, Bobesponjadecampogrande, Homemaranhadeitaguaí. Por via das dúvidas, evite Homeminvisíveldeparaty.

Outra coisa: nada de nomes que propaguem ostentação e opulência: CarlãodoBMW, JoanadaMansão, Alexdorolex. Alguns eleitores poderão até achar sexy, mas outros entenderão como uma declaração dos bens que você pretenda dividir. Alguém me disse: “Há um pré-candidato em cada esquina”, prometendo emprego, saúde, transporte, moradia, segurança e educação. Converse com eles, escolha bem! Decida. Talvez você jamais chegue a ver as fotos dos ex-pré-candidatos, ao apertar o verde da urna eletrônica; mas, enquanto eles se expressam, enquanto planejam, enquanto convencem, tecem uma canção de embalar o sono e os sonhos de Democracia. Uma canção mais que eclética. Eu diria, sem letra definida e quase sem partitura. Mas que nos mantém distantes do pesadelo de uma ditadura.

sábado, 26 de maio de 2012

O POETA E O SOM DAS RODAS DE UM CARRO DE BOI - Crônica de Erivelto Reis

O POETA E O SOM DAS RODAS

DE UM CARRO DE BOI

Erivelto Reis



Homenagem ao poeta Primitivo Paes na passagem do seu 84º aniversário


Um poeta faz aniversário. É notório que há motivos para comemorar. É difícil! Não sei nem por onde começar: ele é como um pai pra mim. Ele é um ídolo, um exemplo de vida. Nossa amizade é bastante conhecida. Só pelo que se vê de fora. Seria preciso conviver conosco para saber a extensão da admiração que é inspirada a partir do convívio com ele e com os seus. Quem convive com um poeta, quem se emociona com a poesia está um pouco mais perto de Deus.

Primitivo Paes. Esse nome é uma legenda, transmite uma energia positiva, é o nome de uma lenda viva. De um sobrevivente. De alguém decente, honesto. Coerente. Tá certo..., quase sempre. Primitivo, Precavido, Prevenido, Precipício, Privativo, Preferido, Prescritível, Previsível, Presumível, Preterido, Preventivo, Previsivo... As pessoas, surpresas, se confundem, trocam seu nome. Mas não se esquecem de seu rosto, de sua poesia, de sua voz. Primitivo é um desatador de nós.

Poeta, ator, declamador, professor, político, sindicalista, bom vizinho, bom pai, bom avô... Primitivo Paes é um artista. A palavra transita entre seus lábios, como brisa de inspiração socialista – porque compartilhada –, porque não a quer roubada, trancada no peito de um sujeito que não entenda nada. Primitivo tem uma faca afiada: é a sutileza da alegoria de suas poesias que corta qualquer preconceito e desigualdade. Primitivo sabe o que é felicidade, e sabe fazer as pessoas felizes. Respeito à infância e aos direitos humanos são suas diretrizes.

Para que eu fosse realmente correto, não poderia me esquecer de escrever sobre o fascínio que ele tem pelos netos. É adorável, superprotetor. Os olha sempre com o olhar do mais profundo amor. Primitivo Paes é um pacifista, um humanista... É explosivo e engraçado. É um senhor com um senso de humor sensível ao inesperado. É simples, mão não é simplório. Não é bairrista, é cosmopolita. Protagonista nas histórias de gente que lutou por democracia, liberdade e dias melhores. É sensível, e chora à toa. É uma boa pessoa. É um grande companheiro. O que ele fez e faz por seus amigos daria para escrever um livro... E assim foi feito.

Nesse dia festivo, 28 de maio de 2012, todos os votos de alegria e felicidades para esse amigo, Campograndense de coração, poeta pernambucano de verdade. O som das rodas do carro de boi de sua poesia passou e passa pelas estradas de nossa emoção todos os dias e, a cada vez, o som se amplia ainda mais. Quem o conhece há muito tempo, pode declarar, com todo sentimento: “uma amizade como a sua é um presente tão intenso, que outro igual não haverá jamais”.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Poema para Erivelto - Cícero Cesar Batista


Sei que é cabotino, mas não resisti à possibilidade de dividir com meu leitores a homenagem recebida por mim, em forma de poema, prestada pelo Professor Cícero Cesar Batista.

Poema para Erivelto

Cícero Cesar Batista
 
não amansei burro brabo
não cai de nenhum selim
mas Góias velho, meu velho
é sertão que vive em mim
 
vive em mim, como Itabira
viveu  encardida em Carlos
vive em mim, interiorana
com seu coreto velho, descascando
vive em mim, como um estalo
vive em mim, ninguém me tira
 
(o que escrevo é livro
à procura de quem ama ou sorri
é Góias velho quem pede: volta, Erivelto. mas como?)
 
por isso, sem rima, somos;
erres se abrem como portas na capa azul

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Crônica: Shiuu, bene! - Erivelto Reis


SHIUU, BENE!


Erivelto Reis

Olhe em volta. O que tem visto? Oásis de crediários futuros, vindos de outras paragens. Lojas de vender comodidades, de inventar modas. De gerar divisas para outras comunidades. Marcas de que o tempo passa. Passou. Tá passando! Mas que o comércio parece não viver de passado. Desculpe, se pareço decepcionado. A Silbene fechada, com placa escrito: “à venda”, na fachada... não há quem entenda.

Quem já não se socorreu de alguma necessidade urgente comprando, ou usando o banheiro da Silbene? Quem já não se deliciou com as balas, com os sorvetes, com o suco de laranja e o misto quente comprados na Silbene? As fichas para pedir o café encorpado, os azulejos azuis, os brinquedos, a vitrine, na frente da loja, na parte de cima, decorada conforme as datas do calendário?!

Xerocar, plotar, bordar, coser, encadernar, consumir, revelar... comprar, postar, digitar, imprimir, consertar, lanchar, almoçar, variar. Tudo na Silbene. Ser bem tratado, bem atendido, maltratado, ignorado. Dependendo do dia e do funcionário... Tudo na Silbene. Olhar os quadros, comprar jornais, material escolar, carregar cartuchos, canetas e produtos, comprar agendas, livros, encomendas, bolos, tortas e biscoitos... Tudo na Silbene.

Campo Grande vai perdendo, ano após ano, algumas marcas tradicionais de seu comércio. E essa agora parece ser uma pancada forte demais. Começo com a “Sem Nome” e com a “Sunshine”, sorveterias das quais quase ninguém parece lembrar. Depois foi a vez de a “Cetel” ir pro beleléu. E o São Brás, outro dia, quase passa a existir só no céu. As Casas Pernambucanas, as Brasileiras, as Paraíbanas. Sem falar da Luzes, que mais parece uma fênix a ressurgir das cinzas... O Café Brasil, a Sugared, a pedir a eutanásia ou sobrevida comercial. Onde antes havia um Varejão das Fábricas, hoje um Santander se abancou; onde antes havia uma Ultralar, uma Toc, uma Magal... Hoje há uma Pacheco, uma C&A, uma Superlar. E olhe lá.

Quem não se lembra da Calçados Vilma, da Sapasso, da Casa Mattos, que a Di Santinni fez dar no pé. O Cine Palácio e as filas intermináveis para assistir os filmes em sessões duplas de sonho e travessuras. As irmãs: Anderson e Daniele modas, as Casas Sendas, O CredReal ao lado das Americanas, o BEMGE (não o cachorrinho); o Disco, o Leão, o Rainha, as Casas da Banha, o Supermercado Rio, a própria Rua Barcelos Domingos, esquina com a Rua Campo Grande, que hoje é um calçadão.  Ali, encontra-se a estátua de Adelino Moreira, como patrono e vigia de uma eterna água de sabão que escorre sem explicação. Lava roupa, Adelino! Ou então, denuncie, Negue.

Lembro, ainda, a Musidisc, a Gramophone, a Espaço Musical. A drogaria Romeiros, onde, hoje, há a esquina da Ricardo com o Guanabara, o Audi Shopping e o Passeio. A torrefação do Café Câmara na Estrada do Monteiro. Parece que houve uma drástica operação plástica em Campo Grande inteiro. Nem o Colégio Belisário vai escapar de ingressar no inventário. A memória até ajuda, mas a vida é curta para resgatar o que não for registrado.

Torço para que os funcionários da Silbene possam, logo, logo, estar empregados. Torço para que a História não se perca. Torço para que as casas tradicionais que ainda restam, persistam. Para que a Associação Comercial possa continuar valorizando os empreendedores locais, sem se esquecer de valorizar as manifestações culturais. Pena, pela Silbene. Temor pelo que vem pela frente. Shoppings são espaços comerciais construídos para serem atemporais. Quando o futuro fecha as portas à tradição erigida, é sinal que o passado, tão importante, na verdade, não importa mais. Vai ver, não é bem assim. Em todo caso: shiuu, bene!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Poema: (Trans) parentes - Erivelto Reis

(Trans) parentes


Erivelto Reis



Quem tem o olhar perdido

Na estação da vida que não foi.

Quem viu a festa desfeita,

Interrompida,

A conquista adiada.

Quem não viu nada,

Mas ficou com as horas da vida marcadas,

Sabe que uma ruga, um tremor na voz

Não dão conta do espanto do depois do fato,

Do desalinhar dos passos.

A destruição do ser é tão forte, tão intensa...

Mas ainda há flores e sol no inverno do ser só

Mantimentos na despensa, ilusão de desmanchar o nó.

O que dói por dentro é o latejar do pensamento...

Talvez a saudade seja o chicote do tempo,

A farpa que incomoda e maltrata,

Castigo de uma memória inexata.

Ancestrais, descendentes: simples... Gente!

Humilde ruína carente

Semelhantes pela cor do olhar,

Unidos pelo amor que falta.

sábado, 24 de março de 2012

Crônica: "Nascer velho e morrer criança" - Marcos César e Chico Anysio

Nascer velho e morrer criança


Marcos César / Apresentada por Chico Anysio



Nós temos o direito de sonhar! E o meu sonho é o de ter o poder de ser o videocassete de mim mesmo!... Ter um controle remoto que me permitisse adiantar ou atrasar a vida. Eu poderia adiantar e entrar na percepção do futuro ou poderia recuar e parar no momento que me tivesse sido maravilhoso, talvez até eternizar um orgasmo!...

Eu faria, assim, uma edição e teria uma fita só com os melhores momentos da minha vida!... Mas uma fita só não bastaria. Teria de haver várias, por que eu sou um cara de poucas queixas. O importante seria mesmo esse controle remoto, pois eu poderia recuar a fita e me emocionar outra vez com o nascimento de meus filhos; depois eu a adiantaria e veria todos eles crescidos e eu, preocupado…O que serão na vida ? O que terão ? O que farão ?…

Não! Então eu volto, volto, volto, volto, volto, e me vejo outra vez em Maranguape, empinando pipa, jogando pião, escanchado num cavalo de pau, naquela rua de terra batida, onde eu era Tom Mix, eu era Buck Jones, eu era Palance, Cassidi… Eu nu, tomando banho no açude, paquerando calcinhas e sutiãs pendurados nos varais, imaginado seus recheios…

Não! Com este controle remoto eu seria um super-herói: “Eu sou Ulisses, eu tenho poderes!” Mas eu só queria mesmo um poder. O poder de fazer a vida como acho que a vida deveria ser... Acho que o homem deveria nascer com oitenta anos. Nasceria com oitenta anos, iria ficando mais novo, mais novo, mais novo, mais novo, mais novo até… morrer de infância!

Chego inclusive a imaginar uma mãe comunicando o nascimento do filho:

– Menina, meu filho nasceu! Pensei que não fosse nascer mais, tava encruado!

–Nasceu com oitenta e quatro anos! Mas perfeitinho: um metro e setenta e seis, setenta e dois quilos. Eu ia botar o nome de Luis Cláudio, mas ele próprio foi ao cartório e se registrou como Haroldo!

E nos berçários, aquela fila de cadeiras de balanço, com os velhinhos todos sentados... Tossindo, pigarreando. Todos assistidos por geriatras, já que, padecendo eles todos os males comuns aos recém-nascidos: gota, artritismo, lumbago, reumatismo… O homem nasceria com oitenta anos, aos sessenta casaria com uma mulher de cinquenta e nove, mas com uma vantagem: a cada dia, a cada semana, a cada mês, ela ficaria mais e mais jovem, até se transformar numa gata de vinte!

Com oitenta anos nasceria rico, sábio e... aposentado! A partir de então, passaria a ganhar menos, menos; entraria para a faculdade, desaprenderia tudo!… Voltaria àquele estágio de ingenuidade, de burrice, de pureza!

Depois, a bicicleta, o velocípede, desaprenderia a andar, esqueceria como engatinhar. Então, o voador; do voador para o chiqueirinho, do chiqueirinho para o berço, as trocas de fraudas, aquelas três gotas de remedinho no ouvido, o chá de erva-doce para dorzinha de barriga, a chuca, o peito da mãe… e pararia de chorar!

Mas a vida, então teria que ser recriada, o mundo teria que regredir séculos... Cabral e Colombo desdescobririam o novo mundo, o homem desinventaria a roda, atingiria o desconhecimento da pólvora e do fogo, até chegar a Adão, o último homem. O último, primeiro! A quem Deus, colocando-o sobre a sua mão, em vez de lhe soprar a vida, o inspiraria novamente para dentro de si mesmo…


PS: Apresentada em um comercial do videocassete Sharp, nos anos 80.

Lembra muito o conto "O Curioso Caso de Benjamin Button":
…"Eu nasci em circunstâncias incomuns."

 Adaptação do conto de 1920 de F. Scott Fitzgerald sobre um homem que nasce com oitenta e poucos anos e rejuvenesce a cada dia que passa. Um homem, como qualquer um de nós, que não pode parar o tempo.


Poema: Mundo Moderno - Chico Anysio

Mundo Moderno


Chico Anysio



Mundo moderno, marco malévolo,

mesclando mentiras,

... modificando maneiras, mascarando maracutaias,

majestoso manicômio.

Meu monólogo mostra mentiras,

mazelas, misérias, massacres,

miscigenação, morticínio –

maior maldade mundial.

Madrugada, matuto magro,

macrocéfalo, mastiga média morna.

Monta matungo malhado munindo machado,

martelo, mochila murcha, margeia mata maior.

Manhãzinha, move moinho,

moendo macaxeira, mandioca.

Meio-dia mata marreco, manjar melhorzinho.

Meia-noite, mima mulherzinha mimosa,

Maria morena, momento maravilha,

motivação mútua, mas monocórdia mesmice.

Muitos migram, macilentos, maltrapilhos.

Morarão modestamente, malocas metropolitanas,

mocambos miseráveis.

Menos moral, menos mantimentos,

mais menosprezo.

Metade morre.

Mundo maligno, misturando mendigos maltratados,

menores metralhados, militares mandões,

meretrizes, marafonas, mocinhas, meras meninas,

mariposas mortificando-se moralmente,

modestas moças maculadas,

mercenárias mulheres marcadas.

Mundo medíocre.

Milionários montam mansões magníficas:

melhor mármore, mobília mirabolante,

máxima megalomania,

mordomo, Mercedes, motorista, mãos…

Magnatas manobrando milhões,

mas maioria morre minguando.

Moradia meia-água, menos, marquise.

Mundo maluco, máquina mortífera.

Mundo moderno, melhore.

Melhore mais, melhore muito,

melhore mesmo.

Merecemos.

Maldito mundo moderno,

mundinho merda.
Rio antigo


(Nonato Buzar e Chico Anysio)





Quero um bate-papo na esquina

Eu quero o Rio antigo

Com crianças na calçada

Brincando sem perigo

Sem metrô e se frescão

O ontem no amanhã

Eu que pego o bonde 12 de Ipanema

Pra ver o Oscarito e o Grande Otelo no cinema

Domingo no Rian

Me deixa eu querer mais, mais paz



Quero um pregão de garrafeiro

Zizinho no gramado

Eu quero um samba sincopado

Baioba, bagageiro

E o desafinado que o Jobim sacou

Quero o programa de calouros

Com Ary Barroso

O Lamartine me ensinando

Um lá, lá, lá, lá, lá, gostoso

Quero o Café Nice

De onde o samba vem

Quero a Cinelândia estreando "E o Vento Levou"

Um velho samba do Ataulfo

Que ninguém jamais agravou

PRK 30 que valia 100

Como nos velhos tempos



Quero o carnaval com serpentinas

Eu quero a Copa Roca de Brasil e Argentina

Os Anjos do Inferno, 4 Ases e Um Coringa

Eu quero, eu quero porque é bom

É que pego no meu rádio uma novela

Depois eu vou à Lapa, faço um lanche no Capela

Mais tarde eu e ela, nos lados do Hotel Leblon



Quero um som de fossa da Dolores

Uma valsa do Orestes, zum-zum-zum dos Cafajestes

Um bife lá no Lamas

Cidade sem Aterro, como Deus criou

Quero o chá dançante lá no clube

Com Waldir Calmon

Trio de Ouro com a Dalva

Estrela Dalva do Brasil

Quero o Sérgio Porto

E o seu bom humor

Eu quero ver o show do Walter Pinto

Com mulheres mil

O Rio aceso em lampiões

E violões que quem não viu

Não pode entender

O que é paz e amor



Crônica - Doente: ou da Lucidez Perene - Erivelto Reis

DOENTE: OU DA LUCIDEZ PERENE

Erivelto Reis


Às vezes, parece que o mundo está doente. Parece que todo mundo está doente. Parece que doente é quem não sente. Parece que a gente é que é doente. É muito problema, é muito sintoma. É muita gente ignorando o drama. É falta de atendimento, de entendimento. Figuração fajuta, fingimento. É Elixir de Preguiça contra o envelhecimento; são pílulas, drágeas e emplastros de Problema é Seu, consumidos sem consulta médica, social, ética e estética. Sem falar das prescrições do SUS; ai, Jesus!

Sem Uma Solução que preste, já há quem vá dissimulando as caras, as expressões e as dores. Quem use a bula dos discursos, com falsas palavras, falsos abraços de urso. É muito abuso! Há quem vá cuspindo e simulando amores. Quem vá forjando atestado, praticando pequenos atentados, suturas de injúrias, pisando nos calos caluniados. Deixando o sistema cada vez mais nervoso. Como seria bom se o xarope sempre fosse gostoso. Mas não é. Nem é bom pra tosse. E quanto mais amargo, tanto maior a dose. Essas doenças eu não tenho, mas, de vez em quando, eu sofro por causa delas, em doses alopáticas, em frascos feios ou belos, que são pagos em pequenas parcelas.

Tenho sim, igual a tantos, sintomas de Lucidez Perene. E ela me faz enxergar as coisas como são. Quem sabe, apenas altere a minha percepção. A doença é de fácil cura. Se tratada com acupuntura, exposição permanente a ícones da cultura, formas e expressões de arte – daqui e de qualquer parte –, cachaça pura, paixão e amor intensos; Emoção e energias positivas, lágrimas de alegria que empapam umedecidos lenços. Filhos brincando, amigos queridos, filmes românticos, música boa, daquelas de se ouvir à toa, bem alto, mesmo que o vizinho se doa. A combinação e a quantidade de medicamentos podem variar. Não é difícil de tratar, mas pode contagiar. Assim como a doença que faz o escritor utilizar longas sequências de palavras, vazias ou não, mas terminadas em “ar”.

Basta uma leitura, uma metáfora da observação do mundo, atenta ou displicente, em qualquer jornal. Da seção de política à de economia, passando pela coluna social, e já é mais que suficiente para o sujeito em questão começar a passar mal. A Lucidez Perene faz alterar o tom e/ou o volume da voz. Faz o indivíduo assumir a postura de paladino, com a força de reclamar por dois, por muitos, por nós. A vista também se altera: as entrelinhas e os bastidores dos fatos ficam todos à mostra e o sujeito enxerga mil coisas, das quais nem sempre gosta.

Lucidez Perene não tem nada a ver com a idade. Jovens podem contrair; velhos podem propagar. Não é só coisa de homem; não é só coisa para a mulher. Lucidez Perene não é pra quem quer. Nem pra quem pode. É para os sedentários, para os que exercem qualquer profissão, excetuando-se alguns (muitos?) políticos, pseudoartistas e algumas personalidades do esporte. É uma questão de azar ou de sorte. É um caso de vida e morte. Lucidez Perene não se espalha pelo ar, não se espalha como quem passasse um creme. Não se saboreia como se mascasse um chiclete. Quanto mais se lê, quanto mais se pesquisa, quanto mais se reflete, mais chance se tem de pegar.

Os lúcidos crônicos têm, como sintoma específico, a motivação, aparentemente ilimitada, de se indignar, reivindicar e de protestar. E, em casos gravíssimos, adquirem a capacidade de se articular para modificar a dura, a impura, a inadequada realidade. A Lucidez Perene pode evoluir galopante para a metástase da verdade.

Quem tem Lucidez Perene não é um caso perdido, de fato. Os colegas e parentes “pagam o pato”; a família e os amigos, vez ou outra, o confundem com um chato. O patrão pode confundi-lo com um ingrato. Mas os que sofrem a mesma sina o veem como um revolucionário. Essa doença tem cura, é crônica, aguda e pode ser sazonal. Encontrar um lúcido perene é bastante comum e pode ser, paradoxalmente, difícil de achar, tal qual agulha num palheiro. Ele é aquele camarada, quem tendo muito de tudo ou mesmo não tendo nada, parece pensar e trabalhar o dia inteiro para pagar pelas coisas que não se compram com dinheiro.

sábado, 17 de março de 2012

Crônica: Quentinha de Sorvete - Erivelto Reis

                                                  QUENTINHA DE SORVETE
                                                                                         Erivelto Reis



Meu coração parece uma quentinha de sorvete: se derrete por qualquer ato de calor humano. A generosidade me alegra. O respeito me inspira. O amor me enleva. O carinho me emociona. Gente educada me fascina. Amizades sinceras me motivam. Quem sabe se comunicar me encanta. A beleza da bondade, da delicadeza e da arte se entranha nas almas como um “perfume esquizofrênico”, indefinido, mas reconheço seu cheiro por onde quer que eu passe.

Gosto de saber que há palavras ditas em horas precisas e inesquecíveis. Um “bom dia”, um “por favor,”, um “obrigado”, um “eu te amo”, um “até logo”... desde que seja sincero. É só o que espero. Gosto de acreditar que há um jeito de tocar, de segurar na mão, que parece dizer que a ventania vai passar. Gosto de saber que meu amor me ama até com o olhar. Me derreto mesmo. Me derreto muito. Me derreto todo.

É certo que, pra muita gente, a vida tem sido madrasta, tem sabor amargo, tem sido trágica, hemorrágica. Sei que há dificuldade, tristeza, dissabor, desigualdade. Que a vingança é um prato vazio que se come cru e frio. Afirmar não posso, mas desconfio que há um treino, um ensaio. Um olhar de soslaio pras coisas boas da vida enquanto ainda não estão escolhidas, embaladas e nos são enviadas. O mais é conversa, peripécia, peça de oratória que confunde tanto, que confunde mesmo, que confunde muito.

Assim, há quem diga que a lágrima é dor construída, líquida, vária, crônica e esporádica, por quem pena por ter pena de pensar em dó. A lágrima é a foz do rio de quem vive só. É ansiedade repartida e refletida no peso de quem fica com a tonelada, quem leva pisada, carrinho e falta no jogo da vida. Saber disso me faz chorar mesmo, chorar muito... chorar tanto.

As conquistas, as emoções positivas, vividas ou testemunhadas, também fazem do meu coração uma quentinha de sorvete. Mas não é só comigo. Outras pessoas talvez entendam o que eu digo. O coração de um pai que conduz a única filha ao casamento, num sagrado altar, e que, depois de receber um agradecimento em uma pista de dança, começa a chorar, é uma quentinha de sorvete. O coração de uma mãe assistindo os seus filhos que jogam futebol num campinho improvisado, na lateral de casa, ou que busca a filha, linda e talentosa, na Universidade, é uma quentinha de sorvete. Consideração, lembrança no aniversário, homenagem, presente desinteressado, aplauso, poemas descobertos ao acaso e memorizados, são quentinhas de sorvete. Me emocionam muito, emocionam tanto, emocionam mesmo.

Queria que mais emoção, valor e consideração fizessem com que os corações das pessoas transbordassem de felicidade. Fossem componentes de belas histórias. Queria que cada ruga, linha de expressão, cabelo branco ou olheira fossem índices de vitórias. Epígrafes de glórias. Belas trajetórias. Queria isso para muitas vidas, para a minha vida toda. Para a minha vida mesmo. Queria isso pra você também. Um coração caloroso e feliz: tal qual quentinha de sorvete, pulsando, batendo, sem susto, sem despedida... e as pessoas saboreando a Fraternidade, o Amor e a Esperança: o derretido néctar do napolitano sorvete que adoça a vida.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Normas da ABNT - Apostila


Normas ABNT atualizadíssimas

http://www.pucpr.br/biblioteca/sibi/manual_normas.pdf
Oi pessoal,
normas da ABNT super atualizadas. Não deixem de baixar e de ler.
É só clicar no link.
Abraços. 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Poesia: Percursos - Erivelto Reis

PERCURSOS


Erivelto Reis


Quando disseram que haveria paz,

Hastearam bandeira, declararam trégua

Não tomaram água, não esticaram trena,

Não mediram, nem pesaram nada...

Pensavam apenas que a paz estava selada.



Havia fronteiras: foram respeitadas

Havia prisioneiras: foram libertadas

Havia muitas perdas: foram pranteadas

As crianças órfãs: foram adotadas

As cidades-sede: foram reorganizadas.

As bandeiras rotas: foram costuradas.

Deram-se as mãos: suas orações e preces

Foram entoadas de olhos para o céu.



Os resultados pareciam incríveis.



Atiraram mísseis, bombas e projéteis

Mataram em dobro, poluíram mais,

Destruíram a arte,

Erigiram estátuas aos cânones ditatoriais,

Ergueram mausoléu...

Mantiveram a paz.

Translúcida, intocável,

Inexpugnável apenas no papel.



Crônica: Amarelo ouro - Erivelto Reis

AMARELO OURO


Erivelto Reis

Jornal é um veículo que, quando bem dirigido, tanto mais valor se lhe atribui, quanto mais tempo de existência ele tenha. Venha de onde venha. É um vinho que se lê, para aguçar a lucidez, a emoção e a informação que movem o mundo: pequeno ou médio espaço da região pela qual ele circula. Não é papel de nenhum jornal mudar o mundo, mas, de vez em quando, ele muda.

O jornal não é apenas a impressão do que se vê dele, circulando. Não é só a cara que ele tem. É a ideia que o compõe, a ética que o caracteriza, a criatividade que o diferencia, o serviço que ele presta. Jornal sem ética é estética de charlatão, convence por determinado tempo, mas depois, nem como sobra para forrar o chão.

Jornal de bairro, alternativo, tem função distinta que se agrega as de qualquer jornal. Mas vale tal como o ouro, O Amarelinho. Porque é feito por gente que a gente conhece, a quem a gente tem carinho; gente que anda na mesma rua, que frequenta o mesmo problema, comunga da mesma proposta, que preza nosso direito de resposta. Por quem assume que gosta do lugar em que vive; gente que “veste a camisa”; que não se disfarça de íntegro e correto jornalista, articulista. Gente que trabalha muito, que trabalha duro e para o bem. É, antes, vizinho, amigo, parceiro, colega. Tem amor, tem valor e não nega. Gente que torce pelo progresso, pela mesma vitória. Mas, que trabalha para que tudo isso aconteça e que registra nossa história.

Jornal de bairro tem que ter o que nos interessa, da manchete à última página. Não é página virada que se lamente. Fato distante que não se sente ou se comente. Jornal de bairro não tem cheiro de tinta, tem que ter cheiro de gente.

É o jornal de bairro que dá voz, além da indústria da notícia, ao homem comum, e à chefe de família. Do empresário ao lojista. É ele quem valoriza o artista e o lugar onde o artista nasceu. Divulga a atividade cultural, o sucesso do comércio local, a promoção do debate. Jornal de bairro trata a visita, o trabalho e a trajetória do político como o que tem para hoje. Não se contenta com explicações mirabolantes, exige, apresenta, comenta as mazelas, diz com todas as letras qual é o endereço delas.

Um jornal de bairro bem feito, não se faz sem sacrifícios. Não pense que é fácil saber-se alternativo ou tido como facultativo carregando, ao mesmo tempo, o peso de ser imprescindível. Um jornal de bairro é um livro mensal ou quinzenal sempre aberto. É a verdade morando perto e o sucesso bem pertinho. Salve janeiro, salve nossa gente, o povo campo-grandense, no mês de aniversário do jornal O Amarelinho.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Crônica: Seu nariz é bonito, mas alguém pode quebrar - Erivelto Reis

SEU NARIZ É BONITO, MAS ALGUÉM PODE QUEBRAR!


Erivelto Reis

Vaidade. Não conheço gente sem vaidade. Vai ver até exista, só que não faz parte do meu mailing, não está na minha lista. É um encher-se de si, orgulhar-se de algo tido, entendido ou percebido como uma distinção, um dom, uma qualidade, uma característica, senão única, tornada, por quem a possui, em algo bem especial.

O jeito do vaidoso é logo motivo de atenção. Destila modo e elegância, causa e consequência, erudição e eloquência, valor e permanência, poder e excelência, altivez e competência, auto-estima e ambivalência, produção e procedência. Seu nariz é tão bonito, mas alguém pode quebrar. Não que haja, pela vaidade em si, merecimento para quebra que, mais cedo ou mais tarde, sempre há; mas do uso que se faz dela. A vaidade é uma eterna pedrada só esperando pela janela.

Vamos evitar a fantasia: todo mundo gosta de viver e de se sentir bem. Tentar falar sobre alguma coisa não é fazer apologia. A vaidade é um molho na salada pop que se tornou a vida do século XXI. Há quem viva a vaidade do sonho pop (de popularidade), com discrição, no dia a dia, mas a liberte no mundo da internet, no ambiente virtual. Seja em salas de bate-papo, em blogs, no Facebook, – vaidade de encontrar todo mundo a hora que se quer, de ser mais conhecido, mais descolado, mais filosófico, mais antenado, mais engraçado, mais revoltado... de propagar informações em primeira mão, de poder escolher muitas máscaras para emprestar para a mesma solidão. Outros, ainda, consomem nas revistas e nos jornais a vaidade de quem se sobressai.

Vaidade de si para si mesmo, talvez não seja pecado, apenas um dado de personalidade, pitoresco, para ser observado. Mas a vaidade do poder, utilizado para maltratar o povo, por políticos com a vaidade da ostentação de possuir o poder e de não utilizá-lo para servir ao seu eleitorado é um tipo de vaidade que ainda mantém o nosso país acorrentado. A vaidade não deve ser utilizada para oprimir, corromper, denegrir, humilhar, menosprezar. A vaidade não é um substituto de competências e capacidades, mas tem gente que tem vaidade por ter a habilidade de se auto-impingir qualidades que não possui. Esse tipo de vaidade é o cupim que rói o castelo que rui.

Escritor também tem vaidade. Artista, então, nem se fala. A vaidade do professor e a dignidade da sala de aula. Cada um tem a vaidade que merece ou deveria merecer. A vaidade da simplicidade não é tão comum, mas pode haver. A vida de cada um deveria ser a vaidade de todos. Essa esperança é uma verdade que muita gente nega. A vida tem um nariz tão bonito, mas alguém pode quebrar. É preciso, portanto, tentar evitar essa quebra.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Poema: F... (Alô) - de Erivelto Reis

F... (Alô)


Erivelto Reis

Fala mal do amigo

Fala mal da bússola, quando está perdido

Aliás, contudo...

Fala mal da vida

Mas se desespera com uma dor de cabeça

Com uma dor de barriga.

Desculpe-me por não ser profundo.

Fala mal de todo mundo!

Mas não espere só silêncio em resposta...

Fala mal até de quem você tanto gosta.

Critica... Isso te excita?

Te alivia, te torna melhor?

Ou te torna mais só?

Onde está escrito que falar mal

É falar a verdade ?

Que a tua opinião,

Com ou sem dialética, tem peso de verdade?

Expressa tua ideia, incita a discussão.

Implica com tudo, derrama e provoca pranto.

Causa solidão, rancor, desespero.

Quem silencia um amigo, afasta o amor,

Fala mal de tudo ou é mal consigo,

Tem como destino,

Sina ou quebranto,

Ir ao próprio enterro,

Cada dia um tanto...



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Poema: Desconheço - de Erivelto Reis

Desconheço.


Por isso escrevo.

Vai ver penso que escrevo.

Suponho que conheço.

Pago o preço.

Na dúvida se mereço a dádiva da escrita.

Escrevo para quem acredita.

Quem medita, prestigia, avalia a estética, a lógica.

Escrever me alivia de existir.

É uma válvula que mais vaza que represa.

Não me causam surpresa a vilania

e a teimosia das palavras

que não expressam o que eu pensava que sabia.

Não pertenço a nenhum estilo,

a nenhum gênero, nenhuma classe.

Estreio e estranho como quem nasce.

A qual Deus presto conta do quanto enlouqueço?

Que memória resta escrita dos meus tropeços?

As linhas que eles representam

ou as experiências que motivaram a travessia?

O que fiz de fato

ou que a mim atribuem?

Me leem e compreendem? Me leem e lamentam?

Escritor é suprassemigente que sofre mesmo (e estamos conversados)

Saudade é mais fácil

quando se inventa o passado.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012