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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

"Suco de Vinagre" - Crônica de Erivelto Reis



“SUCO DE VINAGRE”
                                                                                            Erivelto Reis

            Às vezes a vida nos oferece “suco de vinagre”. Se for falar de mim, estou cheio até a tampa. Perdas, muitas perdas e tristeza que dói. Saudade que machuca e paralisa. Sequência de trauma e sofrimento. A bebida ácida da lágrima expelida. Quero de volta a minha boa vida. Quero de volta a vida de gente tão boa e amada que partiu. Gente que partiu!!!
            O luto não é permanente, mas a perda não é temporária. Eu quero a minha carga diária de amor e amizade constantes. O que tenho não me parece o bastante. Não apenas eu que perdi, mas me perdi no espaço entre o atender do telefone e o prantear do eterno nome. À beira de um leito emergente. Num belo horrível jardim de saudade, num aparente deserto de amizades. Nunca chorei tanto e tão perto de tudo que aconteceu de repente. Tão de repente.
            Egoísmo? Inconformismo? Falta de fé? Quero de volta as tardes de poesia, de sorrisos, de café e biscoito de maisena à mesa. Quero a sua elegância, a sua gentileza. Não nego. Quero cafuné no ego. Não ter que parecer e agir como se fosse cego aos descasos, aos desmandos. Quero a mão amiga; poder tocar no ombro. Chega de tomar tombo, “toco”, tranco. Por que o espanto? Não passei no vestibular pra ser santo.  Não quero a idealização do poeta, queria sua porta sendo aberta por anfitrião de sorriso largo, e coração tão puro e terno. Queria que a vida continuasse assim.
            Queria alegria, amizade, aconchego. Não esse remédio amargo. Não esse suco azedo. Agora tenho medo. Insônia. Vergonha de ser apontado na rua como alguém que perdeu um amigo.  Não choro a perda de um poeta a quem admirava. Choro a perda de um amigo a quem amava. Outro dia, vi seu monograma gravado num lenço. Seu álbum do tempo. O boi de madeira, no bolso da camisa, a mecha de cabelo cortada mais dolorida... Lancei-me num mundo de descontentamento, de desalento.
            – “Ele fazia suco de vinagre”...  Um alguém me falou certa tarde. E como me emocionou essa história. Que não era metáfora. Talvez fosse esse o seu jeito de entender a liberdade, a democracia, a humanidade. Sua vitória foi sempre prosseguir por amor à poesia, à família e à verdade.
            Quando se luta, quando se perde, quando se chora tanto. Bebe-se, gota a gota, de lembrança em lembrança, sem escudo e sem guarida, a cada minuto, do “suco de vinagre” pranto. Desse que ele provou de tonel, mas com que produzia o mel da poesia que afasta a tristeza que parece perseguir a vida.

Um comentário:

  1. Erivelto,

    Você escreve com tanta intensidade, sinceridade e transparência sobre sua relação de amizade com o primitivo, que ao ler sobre ele através de seus textos eu me emociono ... eu lamento não ter tido a oportunidade de conhecer o Primitivo fisicamente, mas tenho buscado
    acompanhar sua trajetória através dos textos referentes a ele e as poesias escritas por ele, os eventos ao qual participou, etc. É realmente um conteúdo fantástico !

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