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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Crônica: "Dona Maria do Cafezinho" - Erivelto Reis

DONA MARIA DO CAFEZINHO
Erivelto Reis

                O caso é que dona Maria, que trabalhava servindo cafezinho num bar na esquina da Rua Campo Grande com a Lucília foi eleita presidenta da República.
                Começou assim: panfletou e fez boca de urna pra um candidato a vereador que, depois de eleito, não querendo tirar do seu bolso pra pagar a sua melhor correligionária, resolveu levá-la para servir café na Câmara dos incomuns, situada no Centro do... da Cidade.
Chegando lá, dona Maria fez amizades: não faltava, trabalhava e, de vez em quando, servia como guia nas visitas de estudantes, antropólogos e cientistas antropófagos. Ninguém melhor: conhecia as salas, os gabinetes, as passagens e os macetes: não os usava, mas sabia quem.
Deu-se que um oponente do candidato que levara dona Maria ao espaço, como símbolo de seu poder, apossou-se do passe da funcionária exemplar. Nada novo: na casa que deveria ser do povo, qualquer um que trabalhe (de fato), e não se esconda atrás de um mandato, é um funcionário exemplar. Dizem que não existem exceções, mas há.
                Recolocada na profissão, com aumento salarial, e apoiando um candidato que asfaltou metade da sua rua, dona Maria achava estranho que o asfalto só estivesse de um lado da calçada e não de outro. Engenheiros... Mais estranho era o esgoto não estar instalado, a escola não funcionar, a UPA não... O que se faz numa UPA, neguinho? Começando a andar, começando a andar. Sei lá.
                Candidato apoiado por dona Maria nunca perdeu uma eleição comprada. Dona Maria não sabia de nada, mas concordava que parte do seu novo salário fosse dividida com um candidato que dedicou parte de sua vida à desdemocracia. Vereador, deputado, governador, senador, ministro... e dona Maria lá, envolvida nisto. Já andava diferente: olhava nos olhos, comandava o gabinete, sempre sorridente. Continuava servindo cafezinho por fetiche. Só pro chefe, só pra elite.
Até que seu pé de coelho entrou na chapa, concorrendo à vice. Dona Maria quis ser diferente: entrou de suplente. Estava filiada. Era a suplente perfeita, pois ela, de fato, não sabia de nada. Não era uma pobre coitada. Tinha uma ética ilibada, uma moral inatacável, características perfeitas para o estrago, o escândalo que dali a pouco aconteceria, como tem sido historicamente comprovável.  
                CPI, crise, televisão denuncia. Cai o presidente, o vice renuncia. Olha aí, dona Maria, com a faixa de presidenta e miss simpatia...
                – Dona Maria? Dona Maria? Pode me servir um café?
                – Hum? Desculpe, doutor, si-me distraí.
                – Estava sonhando acordada, dona Maria?
                – Não, senhor doutor. É que eu tava emocionada com a musiquinha da sua campanha.
                – É isso, dona Maria. Se eu ganhar, eu prometo que vou pagar a outra metade da sua laje. Mas só se for de isopor, hein?!
                – À noite, no barraco metade laje, metade telha, dona Maria ainda sonhou com o discurso da posse. Acordou assustada, num acesso de tosse. Aí é dose!

                 

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