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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Poema: "GNT", de Erivelto Reis

GNT
Erivelto Reis

Tem gente odiando como quem respira!
Tacando espora e esporro
Na honra alheia.
Plantando intolerância
Como quem semeia
Pedras pontudas,
Castelos de areia...
Com força de naufrágio,
De ideologias de vento
Em cabeças de eco...
Tem gente achando que odiar tá certo.
Arrebanhando seguidores, militantes,
Congêneres, congregados,
Desagregadores,
Agregados por evangelhos de ódio.
Gente que almeja atingir um pódio de poeira,
Pêndulos de movimento incessante,
Seus limites sucumbiram,
Junto com a ética e o caráter.
Tem gente achando que odiar é arte.
Articulados, instrumentalizados,
Cheios de verdades de mentira
Que sacam como armas de verdade...
Com as quais atiram pra matar
De dor, de rir e de medo...
Tem gente achando que ódio é brinquedo.
Não leia, não ame, não (a)brigue, não esqueça...
Perdoe!
É gente cujo mundo está cada vez pior.
Não seja gente assim.

Seja gente, só.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Poema: "Apelo", de Erivelto Reis

Apelo
Erivelto Reis

Difícil viver como se fosse preciso
Provar tudo
O tempo todo
Não a todos
Mas a alguns
Aos quais o que
Que quer que se prove
Nada valha, pouco valha
Ou não importe.
Difícil viver convivendo
Com o conhecimento
De teorias
E o desconhecimento de hipocrisias
Que existem latentes
Na incoerência do dia-a-dia.
Difícil viver sob pressão,
Sob protestos
Sob pretensões
De quem se crê
Bem mais certo que o resto.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Poema: "Drink", de Erivelto Reis

Drink...
Erivelto Reis

Injúria
Inveja
Luxúria
Xarope
Cerveja
Curare
Azia
Usura
Democracia
Ditadura
Discursos de ódio de araque
Ressacas do mesmo
Copo de veneno, bourbon ou conhaque...


Poema: "Que carregue..." de Erivelto Reis

Que carregue...
Erivelto Reis
Notícia de boca que carrega
O destino que não vive,
Pesa quase nada – leve, leve...
Mas, ouvido que escuta
Notícia de destino que se cumpra
Sem querer, sem ter meio ou
Ou condição, à força:
Aproximação do inferno astral que ferve...
Pesa muito: montanha de sal
E chumbo,
Ruína de mundo e neve.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Poema: "Onde é que há?" - Erivelto Reis

Onde é que há?
Erivelto Reis

Arre!
Senhores do mundo,
Fraudes de si mesmos,
O antídoto pra vossa ilusão
É o sofrimento de outros?
Aplaquem vossa ira,
Vossa insanidade,
A fúria com que mandam,
O descontrole com que exigem,
A insolência com que ordenam,
O despudor com que desrespeitam...

Arre!
Senhores do que chamam mundo,
Vossos desmandos autoritários,
Vossos desastres ambientais,
Administrativos e comunicacionais,
Têm gerado guerras, queixas, vácuos,
Hiatos, abismos, barreiras, desbarragens,
Impostos, opressores e impostores...
Têm secado rios,
Ensinado as usuras morais que sequestram a ética...
Disseminado as ofensas silenciosas
Da desfaçatez com que desprezam
Qualquer ser, supostamente, pior
Que seus desparâmetros.

Arre!
Sejam humildes:
Perguntem, partilhem, renunciem...
Respondam pelos desertos que semeiam.

Arre!
“Onde é que há gente no mundo?”
Bradava o bardo, clamando, evocando
Valores ausentes.
Arre!
Estou farto de pseudosemisubgentes...


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Poema: "Um Mestre em cena: o segredo da liberdade" - Helton Tinoco

Eis um lindo presente de Natal que recebi.

Um Mestre em cena: o segredo da liberdade.
Helton Tinoco

Para Erivelto Reis
Ao entrar no palco ele muda o seu estado. Sai do cotidiano, do neutro, da cegueira diurna. Muda a postura, crispa os cabelos, levanta a sobrancelha esquerda. É prazer, é risco, é o inesperado. Caminha entre carteiras, vozes e sons. A platéia atenta! O silêncio e a passividade o assustam e irritam. Ele pensa: _Preciso tocar os corações! O cenário é ainda um quadro negro, murais e trabalhos pendurados formando um cubismo infantil de sonhos, esperanças e referências. O texto é decorado num planejamento, pensado, calculado. É tempo, é espaço, são procedimentos e recursos. A sua voz ecoa tão profundamente necessária e traz clareza. Tudo respeitando a diversidade dos sentidos, mas qual é o sentido? Na platéia: aqueles que não têm luz! Será? Uma platéia não pode ser passiva, não pode ser triste, nem alegre demais, ele diz. Uma platéia deve ser atenta! E cada respiração, cada gesto, nada deve ser em vão. Tudo pensado, calculado, ensaiado, no entanto, pronto para o improviso. Preparado para o risco! O único presente possível é a presença. Viva, instigante, revolucionária. Fazedora de pensar e que destrói lentamente antigas crenças, reinventa amores, recriando a nossa humanidade entre quatro paredes. A aula é uma cena que transcende aparências. É perder a vergonha! É ganhar na troca. É alegria e prazer, mas também, dores e rompimentos. Tudo sem amanhã e sem passado. É estar à beira do abismo e lançar-se sem certezas, com o coração cheio do dever de arriscar-se. Ele, o Mestre, ao mesmo tempo é ator, clown e mágico. É um tipo de gente que se expõe, convida e acolhe. Sobretudo, sem esquecer que o grande motivo de se estar ali é promover algo que brota ali, somente ali. É o segredo da liberdade.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Poema: "Desdito" - Erivelto Reis

Desdito
Erivelto Reis
O que mata o amor
Não é o tempo,
A falta de tempo,
O desalento,
Ou outro elemento.
O que mata o amor
Não é a distância,
A arrogância,
A intolerância,
Ou outra forma de errância...
A morte do amor
Não é desamor,
Ódio ou dissabor.
A morte do amor
É não amar o amor,
É o antiamor.
Matar amor
É amar o reflexo,
É buscar nexo,
É desdesejar o sexo...
Matar o amor
É um ato inexato,
É um desdom inato,
Nem sempre acontece...
Mas, se acontece, é fato.
Ninguém ama desamar
O amor,
O objeto do amor,
O motivo do amor.
Omitir surpresas,
Emitir ofensas,
Silenciar e não compreender carências.
Aquele que, podendo amar, não ama,
Aquele que, podendo amar, desama,
Não o faz de cabeça erguida,
Com orgulho,
Autor de enredo de trama...
Aquele que podendo amar, sucumbe,
Tem nas mãos o roteiro do destino
Que não cumpre.

Poema: "Narciso" - Erivelto Reis

Narciso
Erivelto Reis
Não deixe Narciso perto de espelhos,
De lagos, de rios, de olhos.
Não deixe Narciso perto de papéis,
Documentos e canetas...
Não deixe Narciso perto do poder.
Não deixe Narciso perto de dinheiro,
De gente que bajule,
Se corrompa, que empurre
Em direção ao abismo
Do cinismo.
Não deixe Narciso falar sozinho,
Não deixe Narciso fora de si,
Dentro de si,
Afaste-se dele!
Não deixe...
Narciso?! Pensa, Narciso!
Narciso pensa que é bonito,
Narciso pensa que é mito...
Narciso pensa que é peixe.

domingo, 27 de setembro de 2015

Poema: "Atalho", de Erivelto Reis

ATALHO
Erivelto Reis

Saindo de mim,
À direita do que eu fui,
Tinha um riacho.
Córrego de já sofri,
Desembocando em um mar
De meu Deus, de novo?!
Por essas maldades:
De dar nome a desastres
Tragédias e equivalências
É que o homem vai perdendo
Essência.
Paladar de boca desprezada
Tem gosto de coisa ruim:
No caso, nada.
Saliva ácida!
À esquerda, havia outro caminho,
Que pra não trilhar sozinho,
Desprezei com afinco.
Agora, atordoado, sem recurso
E sem itinerário, me pergunto:
Até onde eu iria?!
Espantei-me aquele dia,
Espantalho a vida toda!
Toada atoa e tola...
Pele tatuada por destino,
Desilude sonho.
Favor sem esperança ou pedido,
Fere ou redime,
Dependendo da altura
Do caminho
Em que você se descobrir
Perdido.
Em qualquer sentido,
Em linha reta ou num labirinto de curva,
Pedra, asfalto e cascalho:
Amor é busca!
Desamor é bússola de encontrar atalho.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Poema: Boa Viagem, de Erivelto Reis

BOA VIAGEM
Erivelto Reis

Se você é meu aluno,
Saiba que eu valorizo seu esforço.
Por isso, conto com sua postura,
Frequência, participação, iniciativa,
Interação, pontualidade, cordialidade.
Conto com seu amor pelas Letras,
Pela linguagem, pela Literatura.
Conto que você vá dialogar com os teóricos,
Que terá compromisso, que honrará sua profissão,
Que agirá como adulto,
Que terá autocrítica,
Que refletirá sobre suas práticas,
E não apenas sobre as minhas.
Que terá respeito por si, por mim,
Pela instituição, por seus colegas
E por outras áreas do saber, como a História,
A Filosofia, a Pedagogia...
Conto com seu entusiasmo,
Com sua capacidade de superar obstáculos.
Conto com sua ética,
Com sua articulação nos debates,
Com a sua felicidade ao produzir algo novo,
Ou, simplesmente, em estudar.
Acredito em seu potencial, por isso não o subestimo,
Nem o trato como “coitado” ou incapaz.
Cobro de você o que se espera de um acadêmico,
De um futuro professor ou profissional,
De acordo com o que a ementa e a práxis determinam.
Se, em consonância com esses predicados,
Eu puder contar com sua amizade,
Sua simpatia, sua boa vontade,
Aí, então, não estaremos sós,
Viajaremos juntos.
Boa viagem pra nós.


sábado, 12 de setembro de 2015

Poema: Fazenda Vista Alegre - Erivelto Reis

Fazenda Vista Alegre
Ao casal Délio e Vera
Erivelto Reis e Gloria Regina Reis
Cuidem, os que me leem,
De semear, qual café, em seu áureo ciclo,
A Vista Alegre de boas memórias.
O café e a memória florescem e declinam.
Mas as emoções vividas, as amizades conquistadas perduram.
Escravos, todos, que somos, fomos e seremos,
Do eterno desafiar de destinos,
Hipicamente saltando obstáculos,
Aparentemente instransponíveis.
Fãs de livros, autores e ideias,
Filosofamos no sofá da sala de estar,
Que pode ser em qualquer lugar,
Enquanto o tempo passado, passa em ondas
De sentimentos que os relógios não marcam.
A casa é mais personagem
Que os de carne e osso. Tem mais História.
Não tem a memória que nós temos, que inventamos
E que nos edifica.
Preservar a casa, a memória
E a esperança é o nosso desafio constante.
Mais até que os próprios laços de amor e de sangue…
Os demais são reais.
E só por essa condição já são nobres.
Ex-nobres, esnobes são os outros.
Talvez, recontando a História mil vezes,
Até que alguém se identifique com ela.
Talvez, escrevendo a nossa História,
Partícipes e cúmplices…
Há um novo campo sendo semeado agora,
Do alto de seus séculos,
As colinas, as árvores, os objetos
O assoalho, as vigas, os vencidos pelo tempo,
As paredes e os jardins observam-nos, quase silenciosamente.
Quase, apenas…
Ao alcance de nossas mãos
Há uma espada que manejamos
Contra a colheita indevida
Daquilo que, por amor, daríamos até o último grão.
Nosso território é onde plantamos o nosso coração.
E de lá sempre saímos vivos. Feridos e vivos.
E de lá não saímos. Mesmo quando não mais estivermos.
Em alguma parte do tempo,
Há um eu e você sendo extremamente felizes.
Juntos, falando de coisas que nos fazem sorrir.
É nisso que acredito.
É disso que me lembrarei quando
A memória me resgatar esse lugar,
A cada vez que eu pensar em, ou passar por ali.
Cuidem os que me leem:
De semear, qual café,
Em seu áureo ciclo,
A Vista Alegre de boas memórias.
É esse o propósito de nossas histórias.

Poema: Formatura - Erivelto Reis

Formatura
Erivelto Reis

Quando o seu nome for pronunciado,
Solicitarem que você se coloque diante
Da mesa de professores,
Para receber a honra que você conquistou,
Sua vida vai desfilar no retrovisor
Da sua retina…
Em uma memória de espiral,
Que mescla o primeiro dia na Faculdade,
O momento da escolha do seu curso,
As suas maiores dificuldades,
E o semblante das pessoas
Que foram suas companheiras.
Isso tudo numa fração de segundos…
Caminhe de cabeça erguida,
Com humildade, decerto,
Mas vislumbre o horizonte.
Seus familiares, emocionados,
Aplaudem pensando: “eu sabia!”,
Alguém, talvez, se remoa, “quem diria?!”,
Intimamente desejando ocupar o seu lugar…
Mas só você sabe o quanto e como você fez por merecer.
Esse será o primeiro grande dia
Dos muitos, das muitas conquistas
De sua vida profissional.
É a cerimônia do seu batismo,
É a sua tão sonhada redenção.
É o dia do seu enlace definitivo
Com a história da Educação. 

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Imagens dispersas, agora reunidas 2
















Imagens dispersas, agora reunidas.





sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Poema: § Revisão § - Erivelto Reis

§ Revisão §
Erivelto Reis

Nada me traduz direito…
Às vezes, uma expressão
Apreendida do que eu disse ao acaso,
Perde completamente o sentido.
Talvez o incólume tradutor
Não me tenha compreendido bem.
Ninguém me traduz perfeito,
Ninguém me descreve plenamente feliz…
Sou encadernação rota,
Velha folha solta,
Edição esgotada, nunca publicada,
Página de diário sem qualquer elã,
Omissão do ecrã,
Erê de enciclopédia,
Traça suicida,
Orelha rabiscada,
Rasura, pé de página,
Enredo denegrido,
Pauta abortada,
Revisão na borda…
Ninguém me traduz direito,
Quando nem eu me escrevo.

Poema: (Over) dose - Erivelto Reis

(Over) dose
Erivelto Reis

Bastou tomar dois uísques,
Que as palavras jorraram de mim,
Como cachaça de alambiques.
Bastou tomar duas doses,
Pra confundir os sons,
Pra ouvir vozes,
Pra suspeitar dos maçons,
Pra ficar amigo dos garçons.
Para emergirem antigas dores atrozes.
Pra rabiscar os livros,
Pra suspeitar dos vivos,
Desenterrar velhas fotos,
Recordar os mortos,
Cantarolar tristes músicas,
Apegar-se a minúcias,
Embotar as núpcias…
Bastou beber dois goles,
Pra igualar-se a um trapo,
Rabiscar guardanapo,
Pra perder a bic,
Pra dar chilique,
Pra ficar com inveja,
De quem se diz chique.
Bastou tomar dois uísques,
Pra ler Leminski,
Pra ouvir Wisnick.
Pra misturar os contos de Clarice,
Pra cometer tolices.
Olhei as linhas tortas,
Das palmas das mãos trêmulas,
Qual duas flâmulas,
Qual dois emblemas…
As vias da vida se atiravam
Para todas as direções!
Iam, inicialmente, para longe…
Depois, pra bem perto:
A um Lugar onde, lentamente,
Estão morrendo os sonhos.

Bastou tomar dois uísques…

sábado, 25 de julho de 2015

Poema: "Engenhagem Narratória" - Erivelto Reis

Engenhagem Narratória
Erivelto Reis

Não há mulher sem vitória,
Não há homem sem derrota.
Não há mulher sem poesia,
Não há homem sem história.
Não há mulher sem memória,
Não há homem sem lembrança.
Não há mulher que não pragueje,
Não há homem que não xingue.
Não há mulher sem maldade,
Não há homem que não brigue.
Não há mulher sem veneno,
Não há homem sem remédio.
Não há mulher sem segredo,
Não há homem sem pecado.
Não há mulher sem coragem,
Não há homem sem medo.
Não há mulher sem sentido,
Não há homem sem direção.
Não há mulher sem mistério,
Não há homem sem evolução.
Não há mulher sem charme,
Não há homem sem arrogância.
Não há mulher desinteressante,
Não há homem sem importância.
Qualquer coincidência,
Não é mera semelhança...
Não há mulher sem atalho,
Não há homem que não atalhe.
Olhando daqui de fora,
Como se fora paisagem,
É tudo drama, suspense ou comédia:
É quase tudo personagem.


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Poema: O que há de Rosa em Pimenta - Erivelto Reis

O que há de Rosa em Pimenta
À margem direita
Estão sentados quase todos.
À margem esquerda,
Estão todos exaltados:
Nem Deus, nem o diabo
Têm existência fora disso.
Sentar-se à esquerda ou à direita dos líderes
É uma forma de exílio.
Sentar-se com os amigos
É uma forma de brandir
A loucura do lúdico
Na cara do infortúnio.
Mesmo se no silêncio
Mais característico
Do estertor do fim do mundo.
Amizade é mais melodiosa
Que amor e música
É um amor com música
Tudo mais fica à margem
Na terceira margem:
De onde parecem partir todas as mensagens
E para onde nenhuma mensagem parte.
É para onde o navegante regressa,
Um porto fora do mapa,
Uma foz que desconhece represa...

domingo, 14 de junho de 2015

Poema: Uma lição de botânica - Erivelto Reis

UMA LIÇÃO DE BOTÂNICA
Erivelto Reis


Entendo, talvez, a rosa,
Que propaga a pétala
Como o ápice de sua existência.
Entendo, talvez, que o espinho
Seja seu companheiro imposto
Ou que esta o escolha, desde que
A agudez do seu poder
Não seja usado contra ela ou contra os que a admiram,
Conforme ela determine a ele.
Entendo, talvez, que o espinho esteja
Relegado ao plano de ser espinho enquanto
Acompanhe a rosa.
E, fora disso, seja reles, vil...
Entendo, mas não aceito
Que haja no espinho, antes de protegê-la,
Pretensão de envergonhá-la!
O espinho ama a rosa:
Entende-a, respeita-a...
Mereceu estar ao seu lado.
Não é como os demais que
Querem possuí-la ou,
Num argumento infantil e tolo,
Apenas olhá-la.

Entendo, talvez, a rosa...

domingo, 7 de junho de 2015

POEMA AO PIBID/FIC - Erivelto Reis

POEMA AO PIBID/FIC
Erivelto Reis
Eu quereria, em criança,
Que os bolsistas PIBID/FIC
Tivessem ido à minha escola.
Quereria ter lido com eles
A emoção de entender as primeiras
Histórias.
Que eles tivessem feito, como fazem agora,
A minha imaginação infanto-juvenil decolar,
Através da arte e da Literatura,
E a minha emoção rolar a partir dos sentimentos
Que sempre estiveram em mim,
E que eles fizessem aflorar.
Quereria vê-los ao lado de meus
Professores e professoras,
Acreditando em mim,
Incentivando-me,
Protegendo-me das coisas feias do mundo.
Quereria isso em meu passado,
Desejo isso para o futuro dos jovens,
Dos adultos e, sobretudo, das crianças.
Educadores, de mãos dadas, comprometidos:
Mais do que alfabetizando,
Ou cobrando a leitura da lição,
Mediando a viagem através da Literatura,
Espalhando amor,
Abraçando com candura,
Vencendo as dificuldades com profissionalismo
E perseverança...
Na prática social, merecedora de reverência,
Aqui definida num conceito subjetivo,
Mas no qual eu acredito:
Letrar é semear a esperança.
Letrar é multiplicar afetos,
Letrar é ler a poesia da alma.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Poema: Vista - Erivelto Reis

VISTA
Erivelto Reis
Para Primitivo Paes
Não perdi você de vista
E sei que nunca vou perder.
Convivo com sua memória
Com uma saudade constante.
Lembro-me de seu aniversário,
Do seu sorriso, de onde íamos,
Do que falávamos.
Eu não perdi você um só instante:
Leio sua distância,
Sinto sua presença!
Dizem, os que não conhecem,
Afirmo, porque eu sei:
É amor que dói, não é tristeza...
Tristeza lateja, cicatriza e marca,
Quando a vida lacrimeja.
Amor transporta, transfere-se,
Recria, regenera e salva.
Amor é a chave da casa,
Mesmo se esta parecer ruína.
É o rumo da estrada,
É a rima...
É a nota de uma canção que nunca termina.
Essa é a razão que eu tenho
Pra não ser pessimista!
É assim que me sinto:
Eu sei que nunca vou perder
Você de vista.

sábado, 16 de maio de 2015

Marmoraria - Poema de Erivelto Reis

Marmoraria
Erivelto Reis

Como todas as pedras têm função
Alguém quis, sei lá por que razão,
Que os humanos fossem iguais.
Atribuíram funções,
Postos, posições hierárquicas,
Políticas e anárquicas.
Talvez meia dúzia de propósitos.
Organizaram, então,
Com os grãos as pedras,
Com as pedras, as montanhas...
Com a humanidade não organizaram nada.
Ou, decerto, não entendi a sua organização...
Dureza não é o único predicado
Que une pedras e homens.
Os nomes, as classes, os valores,
E o que há em seus interiores...
Foi tudo catalogado, mas ainda não tão bem explicado.
As pedras têm matizes, cores
E pertencem ao reino dos minerais
Os homens têm gêneros,
Quase todos transsentimentais
Uns atiram pedras,
Outros recebem pedradas...
As palavras são pedras
Que se libertam dos homens
Têm valor incalculável,
Ou causam ferimentos letais...
Alguns homens são pedras
Que se tornaram animais.


Poema: A traça - Erivelto Reis

A Traça
Erivelto Reis
A traça tem um troço,
Um treco,
Uma trapaça que atrapalha:
Devora os livros,
Não sabe nada!
Os transforma em buraco,
Fungo, mofo, migalha.
A traça se atraca com a palavra
Que ignora.
Agora,
Há que se dizer, não para.
Não importa o preço!
Por um triz, não a esmigalho,
Amasso e me vingo do mal
Que constato e do qual padeço:
Outro estrago nas obras por
Que tenho apreço.
A traça tenta de novo,
Desta vez, outro livro, –
Seu sustento é sua sina...

Criatura miserável:
Viver entre os livros
E morrer à míngua.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Poema: "Parábolinha" - Erivelto Reis

PARÁBOLINHA
Erivelto Reis
Que dia foi este em que a Educação
Soprou aos teus ouvidos prometendo-te fortuna?
Prometeu-te trabalho,
Mas tu ouviste emprego.
Prometeu-te inquietude,
Mas tu ouviste sossego.
Não pode ser,
Seu ego é cego, surdo à realidade?
Que absurdo:
Educação é condição humana fundamental
Para nossa continuidade: como a água ou o ar.
Mas tu ouviste “status”; tornaste-te Midas,
Que em tudo que toca transforma em ferrugem,
Postergação e queixume...
Que afugenta com fogo do orgulho, que abusa
E se recusa a aceitar o desafio do conhecimento.
Mas topa na hora a empáfia de desafiar
Os de teu próprio exército.
A Educação te abriu os grilhões,
E tu inventaste novas prisões.
A educação te fez livre e tu te tornaste agressivo,
Evasivo, corrosivo e crítico dos que a teu favor trabalham.
Devias aprender para mudar,
Mas simulaste aprender para ostentar o título,
Que proclama coisas que tu mal dizes e mal sabes.
És soldado ileso, sem cicatriz.
És parecença do que é ser aprendiz.
És o porta-estandarte, da arte que desconheces.
Mentes se diz “mestre”; tremes se ouves “prove”.
Assuma teu posto, mude, tire a prova dos nove.
Arrepende-te!
A Educação é o novo evangelho a que te convertes.
Construa-te!
Não envenenes a água que tu mesmo bebes.

sábado, 21 de março de 2015

Herança - Poema de Erivelto Reis

HERANÇA
Erivelto Reis

Para Gloria Regina

Nunca amamos tanto quanto na noite em que nos perdemos!
Amanhecia quando nos despedimos do tempo...
Hora empenadas, emperradas em ânsias e gozos
Que jamais herdaram marcas, tons e sabores.
Nunca amamos tanto quanto aquela noite...
Vastos de trilhar esconderijos,
Castos de olhar montanhas,
Horizonte surge, voo de alvorada.
Nunca ardemos tanto quanto as febres
Incuráveis de mãos tão macias, toques sensuais.
Nunca é muito tempo pra quem
Quer sempre mais.
Agora não dá para olhar pra trás:
Nem sei quem eu era antes de você,
Nem sei se eu era antes de você...
Que noite aquela!
Nunca amamos tanto quanto aquela noite...
Sempre houve busca,
Sempre houve entrega.
Vento na janela,
Espelhos embaçados:
Amor é caneta de escrever passados,
Amor é lembrança de projetar futuros.
Nunca amamos tanto, suor, sons de sussurros...
Silêncio e aconchego!
Nunca amamos tanto,
Sempre amamos mesmo.


"MEA-CULPA DO PROFESSOR SERVIDOR" - Poema de Erivelto Reis

MEA-CULPA DO PROFESSOR SERVIDOR
Erivelto Reis
Sou um servidor público:
Trabalho ao lado de homens e mulheres capazes,
Dedicados e comprometidos
Ao menos, a maioria deles...
Eles e elas estão em diversas ocupações
Nos quadros do serviço público.
Sou um professor:
Acredito na Educação Pública de qualidade,
Em uma escola cidadã, em uma educação libertadora,
Na autonomia e na igualdade entre as pessoas,
Na responsabilidade dos pais e responsáveis,
Em orientarem seus filhos e entes queridos.
Entendo que a cidadania produz o progresso,
E que a dignidade humana não se traduz em rótulos.
Espero que a Educação tenha soberania,
Que a politicagem e o corporativismo
Não danifiquem o processo de ensino-aprendizagem.
Não há mágica, não há truque:
As crianças têm de ser educadas, preparadas...
A educação é um direito, mas também uma conquista.
Não questione meus valores, sem antes mostrar sua capacidade.
Sou um professor, não sou uma máquina, não sou um cargo,
Não sou um número, não sou um “qualquer”...
A educação transformou minha vida
E poderá transformar sua vida, também.
Não sou melhor que ninguém,
Mas não sou pior que os demais.
Sou um servidor público:
Ao falar comigo, responderei em atenção
E respeito às suas palavras.
Dirija-se a mim da mesma forma.
Há coisas de que eventualmente necessita,
Que não estão na minha área de atuação.
Sou um professor: apenas isso.
Não fale mal de outros pra mim
Não fale mal de mim pra ninguém.
Considere o meu trabalho: vou considerar sua história.
Farei o melhor que eu puder
Com os recursos de que dispuser.
Trabalho porque amo a profissão que escolhi,
Porque tenho condições para tanto,
Porque preciso sustentar minha família,
E porque posso contribuir para melhorar
O espaço e as pessoas à minha volta,
Para me melhorar, evoluir, transformar.
Tenho sentimentos, tanto quanto você...
Sou servidor, sou professor, não sou serviçal.
Me julgar sem me conhecer é um ato superficial.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Poema: O fatídico poema do poeta que ficou sem a poesia - Erivelto Reis

O fatídico poema do poeta que ficou sem a poesia (“O que é teu tá guardado”)
 
Isso é alfaiataria, é arte, é alta-costura. É coisa cristalina de tão pura.

Para Flávio, Cícero e ao que ficou sem a poesia
O poema é uma roupa, Que o autor até cabe nela Mas empresta pra outro usar. E é tanta gente usando Que a roupa periga a se reinventar Ao invés de esgarçar. Poema plágio, poema piada, Blague, 22 revisitada, Cachaça, poesia, samba e tropicália: Três moscas mortas, Três mosqueteiros, Sonho lindo, Mas é tanta gente canalha Que atravessa o samba, ralha, retalha, Trava a bossa e discursa sobre o nada. Registra a patente, publica a (pró) tese, Se põe no Olimpo, empertiga-se por isto? Não vale o risco, Afivela o cinto, economiza o susto que o pouso é brusco… Demoro muito a falar, mas quando começo, Pra (eu) me calar é um custo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Poema: "Palíndromo" - Erivelto Reis

PALÍNDROMO
Erivelto Reis

Para a Gloria Regina de agora num futuro tão, tão distante...

Que estes versos jamais foram tristes...
Que são versos de felicidade.
Que são versos de gratidão.

Os tempos dirão do que fomos
Quando estivemos juntos.
Ah, sim, falarão...
Testemunhas
Inventarão lendas, hinos,
Frases que nunca dissemos,
Origamis do destino,
Que se encaixarão
Na linda história de amor que vivemos.
Nossos netos terão nossas fotos
Em velhos porta-retratos empoeirados.
Ou nossos filhos levarão
Nossas iniciais em cordões,
Em seus corações, em seus traços, gestos e
Em suas mentes.
Orvalharão saudade...
Recordarão
A chuva de que você tanto gostava
Quando caia serena.
Seu sorriso doce e seus trejeitos mais ainda.
O vento soprará meu nome,
Que junto do seu fará maior sentido...
E só assim deverá ser lembrado.
Ah, dirão do que fomos...
Do que fizemos com o amor que ganhamos!
Sim, dirão...
E nossas mãos repousarão entrelaçadas
No etéreo esvair da aurora,
No cair da tarde de um eterno agora.
E de nenhuma noite
Brotará mais brilho que de seus olhos.
(Pra dizer de amor nenhuma palavra é tão hábil),
Mas o que sinto me move para o leve toque do seu lábio.
Não é lábia:
É uma paz que recomeça e nunca acaba.
Ah,
Sim...
Dirão do que fomos:
Amados, amantes...
Tanto quanto nenhuns outros
Antes.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Poema: Açude - Erivelto Reis

AÇUDE
Erivelto Reis

Açude é ilha
Desterrada.
Vale, nada…
Espaço inundado
Por suposta nuvem decadente.
Açude,  no fim, é lama, limo, lodo
No fundo,  todo, ilude

Feito qualquer tipo de açude.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Poema: A memória das plantas - Erivelto Reis

A memória das plantas

Erivelto Reis

O dia e a noite ensinam
Que as plantas têm memória…
A sombra da tarde,
– A clorofila das folhas,
A seiva que escorre manchando de letras o papel:
Passado e futuro do vegetal existir.
O alvorecer e o escorrer do orvalho,
O balançar dos galhos
Que lembra a brisa suave:         
(Movimento combinado
Do orgânico, botânico,
Telúrico recordado).
Forma e função na memória
Dos atos.
Literatura é muito disso:
Fotossíntese das palavras e silêncios da alma…
Ou quase, ou mais que isso.
Agora não me recordo.
A semente
É a reencarnação das plantas
Metafísica memória
A cor das flores é memória
De cada estação…
De como
E quando quase tudo floresce!
A humanidade também tem memória
 – Seletiva –, do mal que sempre lembra
E do bem que é feito,
Do qual, de vez em quando,

Esquece.