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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Poema: "Onde é que há?" - Erivelto Reis

Onde é que há?
Erivelto Reis

Arre!
Senhores do mundo,
Fraudes de si mesmos,
O antídoto pra vossa ilusão
É o sofrimento de outros?
Aplaquem vossa ira,
Vossa insanidade,
A fúria com que mandam,
O descontrole com que exigem,
A insolência com que ordenam,
O despudor com que desrespeitam...

Arre!
Senhores do que chamam mundo,
Vossos desmandos autoritários,
Vossos desastres ambientais,
Administrativos e comunicacionais,
Têm gerado guerras, queixas, vácuos,
Hiatos, abismos, barreiras, desbarragens,
Impostos, opressores e impostores...
Têm secado rios,
Ensinado as usuras morais que sequestram a ética...
Disseminado as ofensas silenciosas
Da desfaçatez com que desprezam
Qualquer ser, supostamente, pior
Que seus desparâmetros.

Arre!
Sejam humildes:
Perguntem, partilhem, renunciem...
Respondam pelos desertos que semeiam.

Arre!
“Onde é que há gente no mundo?”
Bradava o bardo, clamando, evocando
Valores ausentes.
Arre!
Estou farto de pseudosemisubgentes...


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Poema: "Um Mestre em cena: o segredo da liberdade" - Helton Tinoco

Eis um lindo presente de Natal que recebi.

Um Mestre em cena: o segredo da liberdade.
Helton Tinoco

Para Erivelto Reis
Ao entrar no palco ele muda o seu estado. Sai do cotidiano, do neutro, da cegueira diurna. Muda a postura, crispa os cabelos, levanta a sobrancelha esquerda. É prazer, é risco, é o inesperado. Caminha entre carteiras, vozes e sons. A platéia atenta! O silêncio e a passividade o assustam e irritam. Ele pensa: _Preciso tocar os corações! O cenário é ainda um quadro negro, murais e trabalhos pendurados formando um cubismo infantil de sonhos, esperanças e referências. O texto é decorado num planejamento, pensado, calculado. É tempo, é espaço, são procedimentos e recursos. A sua voz ecoa tão profundamente necessária e traz clareza. Tudo respeitando a diversidade dos sentidos, mas qual é o sentido? Na platéia: aqueles que não têm luz! Será? Uma platéia não pode ser passiva, não pode ser triste, nem alegre demais, ele diz. Uma platéia deve ser atenta! E cada respiração, cada gesto, nada deve ser em vão. Tudo pensado, calculado, ensaiado, no entanto, pronto para o improviso. Preparado para o risco! O único presente possível é a presença. Viva, instigante, revolucionária. Fazedora de pensar e que destrói lentamente antigas crenças, reinventa amores, recriando a nossa humanidade entre quatro paredes. A aula é uma cena que transcende aparências. É perder a vergonha! É ganhar na troca. É alegria e prazer, mas também, dores e rompimentos. Tudo sem amanhã e sem passado. É estar à beira do abismo e lançar-se sem certezas, com o coração cheio do dever de arriscar-se. Ele, o Mestre, ao mesmo tempo é ator, clown e mágico. É um tipo de gente que se expõe, convida e acolhe. Sobretudo, sem esquecer que o grande motivo de se estar ali é promover algo que brota ali, somente ali. É o segredo da liberdade.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Poema: "Desdito" - Erivelto Reis

Desdito
Erivelto Reis
O que mata o amor
Não é o tempo,
A falta de tempo,
O desalento,
Ou outro elemento.
O que mata o amor
Não é a distância,
A arrogância,
A intolerância,
Ou outra forma de errância...
A morte do amor
Não é desamor,
Ódio ou dissabor.
A morte do amor
É não amar o amor,
É o antiamor.
Matar amor
É amar o reflexo,
É buscar nexo,
É desdesejar o sexo...
Matar o amor
É um ato inexato,
É um desdom inato,
Nem sempre acontece...
Mas, se acontece, é fato.
Ninguém ama desamar
O amor,
O objeto do amor,
O motivo do amor.
Omitir surpresas,
Emitir ofensas,
Silenciar e não compreender carências.
Aquele que, podendo amar, não ama,
Aquele que, podendo amar, desama,
Não o faz de cabeça erguida,
Com orgulho,
Autor de enredo de trama...
Aquele que podendo amar, sucumbe,
Tem nas mãos o roteiro do destino
Que não cumpre.

Poema: "Narciso" - Erivelto Reis

Narciso
Erivelto Reis
Não deixe Narciso perto de espelhos,
De lagos, de rios, de olhos.
Não deixe Narciso perto de papéis,
Documentos e canetas...
Não deixe Narciso perto do poder.
Não deixe Narciso perto de dinheiro,
De gente que bajule,
Se corrompa, que empurre
Em direção ao abismo
Do cinismo.
Não deixe Narciso falar sozinho,
Não deixe Narciso fora de si,
Dentro de si,
Afaste-se dele!
Não deixe...
Narciso?! Pensa, Narciso!
Narciso pensa que é bonito,
Narciso pensa que é mito...
Narciso pensa que é peixe.