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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

domingo, 23 de outubro de 2016

Poema: Crusoé - Erivelto Reis - Com imagem

CRUSOÉ
Erivelto Reis - RJ


Não há bússola, barco, casa,
Válvula, remo e vela,
Rede, remendo, parede e janela
Que impeçam o sonho de naufragar,
Quando o amor acaba.
Ninguém desata o nó,
E a areia parece ser solidão em pó...
O mar é coletivo de distância e de profundidade,
É espelho do céu, que a gente diz que é saudade.
A dor é mágoa e fel
Que tanto mais mata de sede
Quanto mais deságua,
Quanto mais faz carga, barril e tonel.
No horizonte do sonho que naufraga,
Os olhos marejam o convés da cara...
E a gente sabe que tem âncora nos pés
Ao invés de asas.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Poema: "Encurralado", de Erivelto Reis

Encurralado
Erivelto Reis

Quando descerrarem a venda, o véu
No momento que antecede a descida do capuz
Que ofuscará para sempre minha capacidade
De reagir à luz, transformando em imagem,
Ímpeto e desilusão os semblantes
Que reconhecer diante de mim,
Terei a certeza de levar pro além
De aqui
Os nomes de meus detratores,
Dos malfeitores,
Sem lhes ter pronunciado ofensas.
Presentearei a todos com minha
Gratidão, minha distância,
Minha subserviência.
Meu sacrifício
Tentará impedir
O dos de minha família,
De minha descendência.
Não é falta de amor
Morrer amando,
Morrer lutando...
É, talvez, utopia.
Morrer silenciando
É oferecer para além
Do sumo armistício
O exemplo
De quem tentou prestar serviço.
De quem exerceu seu ofício
Até o último dia,
O dia que excedeu.
Não dá para supor que,
Como Última palavra, se me escape,
Um escrupuloso adeus.
Mas posso me supor sereno...
Diria Sócrates, diria um trabalhador comum,
Diria, talvez, Galileu,
Ao ver se aproximando
A taça derradeira,
Contendo seu veneno,
Sua sentença...
O último insulto:
Cinco minutos depois
Terá chegado o indulto?



sábado, 15 de outubro de 2016

Poema: "Protesto", de Erivelto Reis

Protesto
Erivelto Reis

Quando foi que as asas das xícaras ficaram mais úteis que as da imaginação?
A resposta está nos gabinetes,
Por detrás das portas de vidro transparentes,
De pessoas não tão transparentes.
Está nos lares, nas rampas, nos corredores das alamedas,
Nas pautas, pecs, no caixa eletrônico vomitando silêncio e indiferença,
No telefonema de cobrança, na ordem de despejo, de busca e apreensão,
Na atitude da ameaça e da mordaça.
Ser professor no meu país é uma aventura, é uma guerra,
É uma perpétua afronta aos poderosos,
Que querem o melhor para os próprios filhos e descendentes,
Mas não o mesmo para o povo, para a gente.
Não sei escrever – sabendo – mas não podendo,
Algo mais lúdico nesse instante em que todas as portas se fecham,
Sob o véu de uma liberdade sequestrada.
Aprendemos cada vez mais tudo sobre nada.
Esquecemo-nos de coisas para as quais a Literatura alertara,
Que a História registrou e que esperávamos que fossem
Partes de uma página virada.
Ser professor no antigo melhor País do mundo
É tão mais sofrido do que sê-lo nos países do novo Velho Continente.
Ser professor é quase ser exótico,
Diferente por querer e por trabalhar pra construir o bem comum.
Os que traíram a nossa classe,
Sem classe e constrangimento algum,
Comemoram e usam a retórica
Enquanto (ainda) não podem prender-nos
E torturar-nos por querermos existir com brio e dignidade.
Os que perderão o futuro que poderiam ter
E os sonhos que construiriam a cada dia – não sabem que perderam,
Nem são capazes de chorar.
A indignação e alienação
Tantas vezes nos paralisa a libido de viver e reagir.
Ser professor num país de democracia líquida,
É sólido, lapidar e permanentemente transitório!
Você é professor?
E faz o quê pra viver?!
Você que governa e legisla e julga e permite esse abuso
Faz o quê pra viver com isso?!
As asas das xícaras se tornaram
Mais úteis que as da imaginação...
O mundo pode até melhorar,
Mas no momento
Não há qualquer previsão.




terça-feira, 11 de outubro de 2016

Poema: "12 de outubro" - Erivelto Reis

12 de outubro
Erivelto Reis 

Quando eu era criança,
Me ensinaram a não falar
Com ninguém que fosse
Ou parecesse Estranho
Aprendi a lição:
Segui a vida assim,
Selecionando...
Mas, de um tempo pra cá,
Eu venho reparando:
Até conversar comigo mesmo
Eu tô achando estranho.
É estranho falar só gerúndio?
Mais do que falar sozinho?
Estranho, hein?!
Só eu que acho estranho
Falar pelos cotovelos?!
Estranhos somos todos nós
Desde antes de inventarem

Espelho.

domingo, 9 de outubro de 2016

Poema: "Id (ente) idade", de Erivelto Reis

Id (ente) idade
Erivelto Reis

A consciência acusa:
Receber o amor que não merece,
Mensagem espionada de watts,
Supor-se tão mais digno que os demais,
Passar por outra rua pra não encontrar
A quem se deve,
Favor que se possa fazer
Mas que se escusa...
Preconceito, intolerância,
Esvaziar o saldo da poupança,
Estourar o limite do cartão e do cheque,
Não receber o amor que se merece,
Só permitir carinho por permuta,
Pai e mãe ignorados sem motivo,
Ser duro, áspero, grosso e possessivo,
Exaurir-se de uma lágrima,
Trocada por uma ilusão impávida,
Sonegar os desejos de uma grávida,
Mentira boba, mentira grave,
Desonestidade, relativização de culpa...
A consciência acusa,
A razão promove,
Mas é o coração que julga.
Haja travesseiro pra tanta noite insone...
A consciência acusa,
Brada silenciosos gritos:
Ela sabe seu endereço, não esquece seu nome,
Conhece os seus mais secretos delitos.